Biophilic Art (Arte biofílica): a arte que reconecta o humano à natureza

O termo biofilia foi introduzido pelo biólogo Edward O. Wilson em 1984 para designar a tendência inata dos seres humanos de buscar conexão com a natureza. Mais de trinta anos depois, Stephen R. Kellert (1943–2016), professor da Universidade de Yale e um dos maiores especialistas em design biofílico, aprofundou e expandiu o conceito no livro Nature by Design: The Practice of Biophilic Design (2018).
Nessa obra, Kellert propõe que a biofilia não é apenas uma afinidade emocional, mas uma necessidade psicológica e estética que molda nossa saúde, criatividade e sentido de pertencimento.

Para Kellert, a vida moderna urbana e tecnológica reduziu a experiência direta com o mundo natural, comprometendo não apenas o equilíbrio ecológico, mas também a vitalidade emocional e espiritual das pessoas. A arte e o design, nesse contexto, tornam-se ferramentas fundamentais para restaurar essa relação perdida, criando ambientes e experiências que reaproximam o humano da vida em sua complexidade. O termo biophilic art, ou arte biofílica, deriva do conceito de biofilia, proposto pelo biólogo norte-americano Edward O. Wilson no livro Biophilia (1984). A palavra une os termos gregos bios (vida) e philia (afinidade ou amor), e expressa a tendência inata dos seres humanos de buscar conexão com a natureza e outras formas de vida. Na arte, essa ideia se transforma em uma prática estética e ética voltada à reconexão entre o humano e o mundo natural — uma tentativa de superar a separação moderna entre cultura e natureza.

A biophilic art não constitui um movimento formal, mas uma abordagem. Ela abrange obras que incorporam materiais vivos, formas orgânicas, processos ecológicos ou narrativas simbióticas, propondo modos de coexistência com o ambiente. É uma arte que se interessa menos por representar a natureza e mais por cooperar com ela, reconhecendo-a como agente ativo do processo criativo.

O conceito de biofilia ganhou consistência com os estudos de Stephen Kellert, especialmente em The Biophilia Hypothesis (1993), que discute a importância da natureza para o bem-estar físico e mental.
Na esfera artística, essas ideias dialogam com o pensamento ecológico, fenomenológico e pós-humanista, em que o corpo, o ambiente e os materiais são compreendidos como partes de um mesmo sistema vivo.

Essa abordagem se alinha a teorias como a de Timothy Morton (Ecology Without Nature, 2007), que propõe abandonar a ideia de “natureza” como algo distante e idealizado, e à noção de ecologia ampliada desenvolvida por Félix Guattari em As três ecologias (1989), que integra o ambiental, o social e o mental em uma mesma teia. A biophilic art compartilha ainda afinidades com a cosmopolítica de Isabelle Stengers e o pensamento de Donna Haraway, sobretudo na ideia de com-viver e de habitar o planeta com responsabilidade compartilhada.

A biophilic art compartilha fundamentos com o design biofílico, conceito difundido na arquitetura e no urbanismo a partir dos anos 2000. No design, o objetivo é reintroduzir elementos naturais nos espaços construídos para promover saúde e bem-estar: uso de luz natural, presença de vegetação, ventilação cruzada e materiais orgânicos. Na arte, porém, o gesto é menos funcional e mais simbólico e relacional. A biophilic art propõe experiências de percepção e reflexão: um convite à consciência ambiental, à escuta do território e à coautoria com o ambiente. Essa distinção aproxima a arte biofílica das poéticas ecológicas e dos movimentos de ecoarte, land art e arte relacional, que desde os anos 1960 vêm repensando o lugar do artista diante da natureza.

Características da arte biofílica

Kellert distingue três formas principais de relação biofílica com o ambiente: direta, indireta e simbólica.
– A experiência direta envolve o contato sensorial com elementos vivos — luz, água, plantas, texturas, sons e aromas.
– A indireta ocorre quando a natureza é evocada por meio de imagens, padrões, cores ou materiais naturais.
– Já a simbólica mobiliza a imaginação e o significado, permitindo que o ser humano reconheça, em nível espiritual e cultural, sua interdependência com o planeta.

Essas três dimensões formam, segundo o autor, a base de uma estética biofílica, em que a beleza se manifesta como experiência vital, não apenas visual. Ela é capaz de gerar prazer, calma, admiração e encantamento — emoções que favorecem a empatia, o bem-estar e o senso de continuidade com o mundo vivo.

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Transposta para o campo da arte, essa ideia indica que uma obra biofílica não se limita a representar a natureza, mas atua como mediadora de uma experiência sensorial e cognitiva que desperta a consciência ecológica. O valor estético, portanto, está ligado à capacidade da arte de restaurar vínculos entre corpo, mente e ambiente.

Embora variem conforme o contexto, as obras associadas à biophilic art costumam apresentar alguns traços recorrentes:

  1. Uso de elementos vivos — plantas, fungos, micélios, água, terra e outros organismos participam ativamente da criação.
  2. Materiais orgânicos e renováveis, como fibras, madeiras, pigmentos naturais, cerâmicas e tecidos.
  3. Formas biomórficas e padrões naturais, inspirados em estruturas como ramificações, espirais, fractais e texturas de folhas ou rochas.
  4. Processos em tempo real, nos quais o crescimento, a decomposição e o clima interferem na obra.
  5. Experiências sensoriais e imersivas, estimulando tato, olfato, visão e audição.
  6. Dimensão simbólica e espiritual, propondo reconciliação com a Terra e valorização das relações interdependentes entre seres.

A biophilic art se apresenta, portanto, como uma poética de reconexão, que não apenas representa a natureza, mas se constrói com e a partir dela.

Princípios do design biofílico e sua transposição para a arte

Em Nature by Design, Kellert sistematiza 14 princípios que definem o design biofílico e que podem também ser observados em práticas artísticas contemporâneas.
Entre eles estão:

  • Ligação com sistemas naturais: a obra dialoga com ciclos ecológicos, reconhecendo processos de crescimento, transformação e impermanência.
  • Complexidade e ordem: equilíbrio entre variedade e harmonia, refletindo a estrutura dos ecossistemas.
  • Ritmo e transição: a experiência estética segue fluxos e movimentos orgânicos, em oposição à rigidez industrial.
  • Materialidade autêntica: uso de materiais que mantêm textura, cor e forma naturais.
  • Riqueza sensorial: estímulo de múltiplos sentidos em vez da centralidade da visão.
  • Abertura e refúgio: criação de espaços que evocam simultaneamente acolhimento e contemplação.

Esses princípios, originalmente aplicados à arquitetura e ao design de interiores, encontram eco na arte contemporânea quando artistas utilizam a natureza como parceira no processo criativo — seja por meio de materiais vivos, da temporalidade das obras ou da construção de ambientes imersivos.

Artistas e práticas contemporâneas

Diversos artistas e coletivos contemporâneos têm trabalhado sob perspectivas que dialogam com a biophilia — ainda que nem sempre nomeiem suas práticas dessa forma. Entre eles:

  • Agnes Denes — em Wheatfield — A Confrontation (1982), cultivou um campo de trigo em Manhattan, transformando a paisagem urbana em território fértil e simbólico.
  • Andy Goldsworthy — cria composições efêmeras na paisagem com pedras, folhas, gelo e pigmentos naturais, registrando o diálogo entre tempo e matéria.
  • Olafur Eliasson — utiliza elementos como água, luz e ar em instalações que questionam percepção e ecologia, como em The Weather Project (2003).
  • Ernesto Neto — constrói ambientes sensoriais com tecidos, especiarias e formas orgânicas, aproximando corpo e natureza em experiências coletivas.
  • Cecilia Vicuña — une poesia, ritual e ecologia em obras que evocam saberes andinos e a preservação das águas.
  • María Thereza Alves — pesquisa sementes e plantas deslocadas por processos coloniais, criando obras que tratam de memória e biodiversidade.
  • Glicéria Tupinambá — articula arte, espiritualidade e território a partir da cosmologia Tupinambá e do uso de materiais naturais.
  • Studio Drift — combina tecnologia e biologia em instalações cinéticas que imitam o movimento de organismos vivos.

Um dos argumentos centrais de Nature by Design é que o contato com a natureza não é apenas funcional, mas formador de significado. Kellert afirma que “a natureza é a principal fonte de aprendizado estético, ético e espiritual do ser humano”, e que a sua ausência gera alienação e perda de sentido.
Nesse ponto, a arte biofílica não atua apenas como representação do natural, mas como ato de reconciliação simbólica — um modo de reinscrever o humano dentro da teia da vida.

A biophilic art pode, portanto, ser entendida como arte da presença: um campo em que os sentidos se tornam instrumentos de conhecimento e em que o gesto criativo reflete a interdependência entre vida, forma e matéria. Como sugere Kellert, é na integração entre mente, emoção e ambiente que reside a possibilidade de um futuro sustentável.

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