Por séculos, os nomes de grandes mestres como Leonardo da Vinci e Michelangelo dominaram as narrativas do Renascimento italiano. No entanto, escondida atrás das paredes dos conventos de Florença, uma mulher desafiou as limitações de seu tempo para criar obras monumentais. Plautilla Nelli (1524–1588), uma freira dominicana autodidata, é hoje reconhecida pela historiografia como a primeira pintora renascentista de Florença, cujo legado está sendo resgatado após 500 anos de invisibilidade.
Nascida Pulisena Margherita Nelli em uma família de comerciantes, ela ingressou no convento de Santa Caterina di Cafaggio aos 14 anos. Em uma época em que as mulheres eram proibidas de estudar anatomia ou ter formação artística formal, Nelli aprendeu a pintar de forma autodidata, copiando desenhos de mestres como Fra Bartolommeo e estudando as obras nas igrejas de Florença.
Mesmo com as restrições de gênero — que a impediam de vender obras diretamente ou emitir notas fiscais — Nelli estabeleceu uma oficina exclusivamente feminina dentro do convento. Sua fama foi tamanha que o historiador Giorgio Vasari afirmou que “havia tantos quadros seus nas casas de cavalheiros em Florença, que seria tedioso mencioná-los todos”.
A Obra-Prima: “A Última Ceia”
O ápice de sua carreira é a imponente “A Última Ceia”, uma tela de quase sete metros de largura pintada entre 1550 e 1568. Nelli foi a única mulher do Renascimento conhecida a enfrentar esse tema, que era considerado o teste definitivo para os grandes pintores da época. A obra é monumental em tamanho (1,92m x 6,71m) e em técnica, desafiando as limitações impostas às mulheres na época.
A obra traz detalhes fascinantes que revelam a maestria e a consciência de Nelli sobre seu papel:
- Assinatura e Apelo: No canto superior esquerdo, ela escreveu em latim “Orate pro pictora” (Ore pela pintora), um raro registro de sua identidade e importância como artista mulher.
- Realismo e Detalhe: A restauradora Rossella Lari destaca o vigor das pinceladas de Nelli e sua atenção extraordinária a detalhes, como as veias nas mãos dos apóstolos e as cutículas das unhas.
- A Mesa do Convento: Os alimentos retratados — pães, verduras e cordeiro — refletiam a dieta simples e os rituais do próprio convento dominicano.
- A “Mão” da Artista: A restauradora Rossella Lari identificou que Nelli utilizava pinceladas largas e contundentes. Detalhes anatômicos como as veias saltadas nas mãos dos apóstolos e as cutículas das unhas demonstram um realismo surpreendente para alguém que não teve acesso a modelos nus.
- O “Pecado” de Judas: Nelli rompeu com a tendência de sua época (como a de Da Vinci) e voltou a uma tradição anterior ao colocar Judas isolado do outro lado da mesa. Ele é retratado com uma face mais sombria e escura que os demais e é, junto com Jesus, o único que interage com a comida.
- A Bolsa Bordada: Um detalhe inédito nesta versão do tema é a bolsa de Judas decorada com bordados. Estudiosos sugerem que isso faz referência ao ofício de bordado realizado pelas freiras do convento, que era muito famoso em toda a Itália.
A Influência de Savonarola e a Espiritualidade
A arte de Nelli não era apenas estética, mas profundamente devocional. Como seguidora dos ensinamentos de Girolamo Savonarola, ela incorporou princípios de austeridade e purificação em suas telas. Na sua “Última Ceia”, a ausência de interação dos apóstolos com a comida simboliza a vitória da razão sobre os desejos carnais e a busca pela iluminação divina através do jejum e da oração. A obra de Nelli é uma extensão visual dos sermões do frei Girolamo Savonarola.
Simplicidade Visual: Savonarola pregava que as celas dos conventos deveriam ter “figuras simples” para evitar a vaidade. Nelli seguiu essa conduta ao focar na mensagem espiritual e emocional, em vez de ostentação técnica secular.
Abstinência e Gula: A comida na mesa (alface, pães, favas e cordeiro) era idêntica à dieta simples do convento. A falta de interesse dos onze apóstolos fiéis pelos alimentos simboliza a vitória da razão sobre a “carnalidade” e o pecado da gula, enquanto Judas, ao tocar na comida, revela sua natureza mundana.
Símbolos de Penitência: O alface na mesa não era apenas decorativo; na iconografia dominicana da época, representava o conceito de abstinência e penitência.
Uma Guilda no Convento
O convento não era apenas um retiro espiritual, mas um centro de produção artística e econômica sustentável.
- Autodidatismo e Herança: Nelli aprendeu a pintar copiando desenhos herdados de Fra Bartolommeo e estudando obras de mestres como Michelangelo e Andrea del Sarto em igrejas florentinas.
- Gestão Coletiva: Plautilla atuava como uma “madre pittora”, supervisionando outras freiras artistas. Estima-se que pelo menos oito outras freiras a ajudaram na execução da “Última Ceia”. Entre suas aprendizes documentadas estavam as irmãs Prudenza Cambi, Agata Trabalesi e Maria Ruggieri.
- O “Cristo Feminino”: Devido à proibição de usar modelos masculinos, Nelli usava as próprias freiras como modelos ou até corpos de irmãs falecidas para estudar anatomia. Isso gerou comentários na época de que Nelli pintava “Cristas” em vez de “Cristos”, devido às feições delicadas e afeminadas de suas figuras masculinas.
O Resgate de um Legado
Por mais de cinco séculos, a obra de Nelli sofreu um processo de apagamento histórico, com telas danificadas em porões de museus. Foi apenas no início do século XXI, através do trabalho de Jane Fortune e da fundação Advancing Women Artists (AWA), que o mundo redescobriu a importância de Nelli.
Em 2019, após um restauro minucioso de quatro anos, “A Última Ceia” foi finalmente instalada no Museu de Santa Maria Novella, em Florença, garantindo que a “pintora” pela qual Nelli pediu orações seja, enfim, vista e celebrada por todos.
Agora, uma ferramenta de inteligência artificial foi usada para reimaginar seu retrato como fotografia, a partir de uma pintura original atribuída à artista. O resultado é uma aproximação visual que propõe uma nova forma de se conectar com figuras históricas como Plautilla.



