Publicado em 1999, o livro O Novo Espírito do Capitalismo, de Luc Boltanski e Ève Chiapello, tornou-se uma obra fundamental para entender como o capitalismo se legitima ao longo do tempo. Nele, os autores mostram como o sistema não se sustenta apenas pela busca de lucro, mas precisa de justificações ideológicas que motivem as pessoas a aderirem a ele. Entre essas justificações, está a resposta às críticas que o capitalismo enfrenta.
Duas correntes principais são analisadas: a crítica social (voltada para desigualdade, exploração, miséria) e a crítica artística (centrada em alienação, rigidez burocrática, falta de autenticidade e de liberdade criativa). É esta última que, paradoxalmente, se tornou fonte de renovação do próprio capitalismo. Valores como criatividade, autonomia e flexibilidade, que nasceram como contestação, foram incorporados ao discurso empresarial e transformados em motores de mobilização.
Enquanto a crítica social se concentra na desigualdade, na exploração e nas condições materiais de vida, a crítica artística volta-se para a alienação, a perda de autenticidade e a falta de liberdade criativa. É essa crítica, que denuncia o peso da hierarquia, a rigidez burocrática e a homogeneização da experiência, que o capitalismo soube incorporar de maneira surpreendente, especialmente a partir das transformações ocorridas nas décadas de 1980 e 1990.
Ao analisar a crítica artística, Boltanski e Chiapello revelam como valores como criatividade, autonomia e flexibilidade passaram a ser centrais no discurso empresarial e se converteram em novos princípios de mobilização. O que, em um momento, fora uma contestação vigorosa ao capitalismo, transformou-se em combustível para sua renovação.
O que é a crítica artística?
A crítica artística nasce de um questionamento profundo às formas de vida padronizadas pela sociedade capitalista industrial. Segundo Boltanski e Chiapello, a crítica artística emergiu com força nos anos 1960, especialmente em maio de 1968, quando estudantes, intelectuais e artistas questionaram a vida burocrática e alienada. Ela denunciava a opressão hierárquica; a falta de autenticidade nas relações; a ausência de espaço para imaginação e criatividade; e a padronização da experiência humana.
- A alienação provocada pelo trabalho burocrático, repetitivo e impessoal;
- A ausência de autenticidade nas relações sociais;
- A carência de liberdade individual para criar e se expressar;
- A uniformização de valores e comportamentos, que sufoca a subjetividade.
Para os autores, essa crítica se expressa de forma emblemática em maio de 1968, quando estudantes e intelectuais reivindicaram mais espaço para a imaginação, para a experimentação e para uma vida menos engessada pelos imperativos econômicos.
Boltanski e Chiapello descrevem que “a crítica artística, tal como se cristalizou em maio de 1968, concentra-se na denúncia da opressão, da uniformidade, da ausência de autonomia e de autenticidade, da falta de espaço para a imaginação e a criatividade.”
A absorção da crítica artística pelo capitalismo
Nos anos 1990, em plena transição para um modelo de empresa em rede, o capitalismo mostrou-se capaz de incorporar boa parte da crítica artística. O que antes era denúncia virou atributo valorizado nos manuais de gestão:
- A rigidez hierárquica foi substituída pelo elogio à horizontalidade;
- O trabalho disciplinado e monótono deu lugar à retórica da criatividade;
- A segurança da carreira estável foi trocada pelo apelo à flexibilidade;
- O sujeito submisso foi substituído pelo ideal do profissional autônomo, capaz de gerir sua própria trajetória.
Segundo os autores, “o capitalismo mostrou-se capaz de absorver as críticas dirigidas contra ele, integrando-as ao seu próprio discurso e transformando-as em motores de sua renovação.”. Essa assimilação não foi apenas retórica, mas prática: os manuais de gestão empresarial dos anos 1990, que Boltanski e Chiapello analisam detalhadamente, passaram a celebrar o trabalhador criativo, disponível para projetos temporários, disposto a circular em redes e capaz de se reinventar constantemente.
Criatividade como valor mobilizador
Na lógica do novo espírito, a criatividade deixa de ser um luxo artístico ou uma crítica à ordem e se torna requisito profissional. O trabalhador ideal no novo espírito do capitalismo é criativo, capaz de improvisar e propor soluções inovadoras em situações de incerteza. O que antes era associado à boemia ou ao campo artístico torna-se exigência nos escritórios e nas fábricas.
- propõe soluções inovadoras;
- sabe improvisar diante de contextos incertos;
- transforma obstáculos em oportunidades de invenção.
Os autores escrevem que “a criatividade, outrora emblema da contestação, tornou-se qualidade profissional indispensável, inscrita nos próprios manuais de gestão como critério de excelência.”
Autonomia e a retórica da liberdade
Outro elemento crucial da crítica artística – a busca por autonomia – foi reelaborado pelo capitalismo.
- Nos anos 1960, autonomia significava libertar-se das hierarquias rígidas e do controle burocrático.
- Nos anos 1990, autonomia passa a significar capacidade de gerir a si mesmo, organizar sua carreira, assumir riscos e ser responsável pelo próprio sucesso ou fracasso.
Boltanski e Chiapello observam: “A autonomia, que outrora significava emancipação coletiva diante do poder, foi reconfigurada como responsabilidade individual diante de um mercado em permanente transformação.”
Flexibilidade como princípio
A crítica artística também denunciava a rigidez do sistema burocrático-industrial. O capitalismo respondeu transformando a flexibilidade em novo valor central.
- Flexibilidade nas relações de trabalho (contratos temporários, projetos curtos, mobilidade internacional);
- Flexibilidade nas trajetórias (mudança constante de empresas, setores, funções);
- Flexibilidade nas identidades (o trabalhador deve ser capaz de “se reinventar” sempre).
Essa valorização, porém, tem um efeito ambíguo: ao mesmo tempo que promete liberdade, implica precariedade e insegurança. A crítica social, que denunciava exploração e desigualdade, perdeu força; mas os problemas que ela levantava permanecem, agravados pela fragilidade das garantias coletivas.
Da contestação à legitimação
O exame da crítica artística em O Novo Espírito do Capitalismo revela um processo paradoxal. O que surgiu como denúncia do capitalismo burocrático-industrial – a defesa da criatividade, da autonomia e da flexibilidade – tornou-se o núcleo legitimador do capitalismo em rede.
Essa assimilação explica, em parte, a resiliência do sistema: ele não apenas resiste às críticas, mas as transforma em recursos para renovar seu espírito. Como afirmam os autores, “a crítica artística foi, em larga medida, absorvida pelo capitalismo, convertendo-se em sua principal fonte de legitimidade nos anos 1990.”. Assim, compreender o capitalismo contemporâneo exige entender sua relação íntima com as críticas que o desafiaram e que, ao serem incorporadas, acabaram por alimentá-lo.
O livro mostra que a crítica artística não desapareceu, mas foi assimilada pelo capitalismo. A promessa de uma vida criativa, autônoma e flexível tornou-se o núcleo de um novo espírito, capaz de mobilizar gerações de trabalhadores.
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