Entre 12 de junho e 19 de setembro de 2027, a cidade de Kassel receberá mais uma edição da documenta, uma das exposições de arte contemporânea mais importantes do mundo. A 16ª edição será dirigida por Naomi Beckwith, curadora norte-americana reconhecida internacionalmente por pesquisas e exposições que investigam os impactos da cultura negra nas práticas artísticas contemporâneas globais.
A apresentação pública de sua abordagem curatorial aconteceu na documenta Halle e reuniu cerca de 700 pessoas entre moradores, pesquisadores, profissionais da arte e imprensa internacional. O encontro marcou o primeiro grande momento público da construção conceitual da documenta 16 e indicou os caminhos que irão orientar a próxima edição da mostra.
Naomi Beckwith e a construção de uma documenta voltada ao encontro
Escolhida em dezembro de 2024 por um comitê internacional, Naomi Beckwith chega à documenta 16 trazendo uma trajetória marcada pelo diálogo entre arte, política, memória e experiência social. Atualmente, ela atua como diretora-adjunta e curadora-chefe do Solomon R. Guggenheim Museum and Foundation, além de possuir passagens pelo Museum of Contemporary Art Chicago e pelo Studio Museum in Harlem.
Sua prática curatorial se desenvolve a partir de temas ligados à dignidade humana, ao respeito mútuo e às múltiplas formas de convivência. Durante sua fala em Kassel, Beckwith apresentou a arte como um espaço de escuta, imaginação e construção coletiva. Em vez de reforçar divisões, sua proposta enfatiza identidades diversas como potência para colaboração e transformação.
A curadora também destacou o papel dos artistas como agentes ativos da sociedade. Para ela, a arte participa diretamente das discussões do presente e possui capacidade de formular perguntas sobre os futuros possíveis. Esse entendimento aproxima a documenta de debates urgentes relacionados à convivência global, às tensões políticas contemporâneas e às transformações sociais em curso.
A documenta como espaço de pensamento internacional
Desde sua criação em 1955, a documenta consolidou-se como uma plataforma fundamental para refletir sobre os rumos da arte contemporânea e seus vínculos com o contexto político e histórico de cada período. Realizada a cada cinco anos em Kassel, a exposição reúne artistas, curadores, pesquisadores e públicos de diferentes partes do mundo.
Ao longo de suas edições, a mostra tornou-se conhecida por expandir os limites tradicionais das exposições de arte. A documenta frequentemente incorpora debates sociais, investigações históricas, experiências coletivas e formatos experimentais de apresentação artística. Seu impacto ultrapassa o circuito institucional e transforma temporariamente a cidade de Kassel em um grande território de circulação cultural e reflexão pública.
A chegada de Naomi Beckwith aponta para uma continuidade dessa dimensão internacional e crítica. Sua trajetória demonstra interesse por práticas multidisciplinares e por artistas que desenvolvem linguagens conectadas às experiências da diáspora, da memória e da construção de novas formas de comunidade.
O que esperar da documenta 16
Embora a lista de artistas participantes ainda não tenha sido divulgada, as primeiras indicações conceituais sugerem uma edição marcada por diálogos internacionais, abordagens multidisciplinares e investigações sobre identidade, pertencimento e formas de coexistência.
A trajetória de Naomi Beckwith também aponta para uma forte presença de artistas cujas pesquisas atravessam música, performance, memória, arquivo, cultura visual e experiências da diáspora africana. Seu histórico curatorial demonstra interesse por práticas artísticas que articulam questões sociais sem abrir mão da complexidade estética e formal.
A documenta 16 tende a aprofundar discussões sobre o lugar da arte em um mundo atravessado por transformações aceleradas. Mais do que apresentar tendências, a exposição deverá criar condições para encontros entre diferentes experiências culturais, ampliando o papel da arte como ferramenta de imaginação política e sensível.
Naomi Beckwith
Naomi Beckwith é diretora artística da documenta 16 e diretora-adjunta, além de curadora-chefe Jennifer and David Stockman do Solomon R. Guggenheim Museum and Foundation, em Nova York. Lá, supervisiona coleções, exposições, publicações, programas curatoriais e arquivos, sendo também corresponsável pela direção estratégica da rede internacional de museus afiliados.
Anteriormente, ocupou cargos curatoriais no MCA Chicago e no Studio Museum in Harlem. Formada pelo Courtauld Institute of Art, Beckwith organizou e coorganizou exposições e projetos monográficos de destaque, incluindo a premiada exposição Howardena Pindell: What Remains to Be Seen (2018, MCA Chicago, EUA) e The Freedom Principle: Experiments in Art and Music, 1965 to Now (2015, MCA Chicago, EUA). Ela integrou a equipe curatorial responsável pela realização da exposição Grief and Grievance: Art and Mourning in America (2021, The New Museum), concebida por Okwui Enwezor antes de sua morte.
Suas exposições, palestras e publicações investigam o impacto e a ressonância da cultura negra nas práticas multidisciplinares da arte contemporânea global. Como pesquisadora e historiadora da arte, Beckwith foi professora visitante na Northwestern University e na School of the Art Institute of Chicago. Atualmente, atua como docente na Kunsthochschule Kassel.
Ela recebeu bolsas de pesquisa do programa Independent Study Program do Whitney Museum of American Art e do Institute of Contemporary Art. Em 2024, foi homenageada pelo High Museum of Art com o David C. Driskell Prize. No outono de 2025, liderou a equipe curatorial da American Season no Palais de Tokyo, sendo responsável pela apresentação da exposição ECHO DELAY REVERB — American Art, Francophone Thought e pela retrospectiva de Melvin Edwards.
Equipe de Direção Artística
Carla Acevedo-Yates
Carla Acevedo-Yates é curadora e pesquisadora dedicada à arte contemporânea das Américas a partir de uma perspectiva transcultural, com foco especial no Caribe, na América Latina e nos Estados Unidos. Atuou como curadora no Michigan State University Broad Art Museum e no Museum of Contemporary Art Chicago, onde organizou, entre outros projetos, as exposições coletivas Forecast Form: Art in the Caribbean Diaspora 1990s – Today e entre horizontes: Art and Activism Between Chicago and Puerto Rico. Suas exposições, publicações e palestras recentes investigam a diáspora como um espaço de produção cultural capaz de reinventar a vida social e política.
Romi Crawford
Romi Crawford é educadora, escritora e professora de Visual and Critical Studies na School of the Art Institute of Chicago. Seu trabalho investiga formas de produção de conhecimento que emergem da prática artística e propõe uma abordagem da história da arte responsiva, colaborativa, regenerativa, dinâmica e frequentemente experimental. Seus projetos curatoriais e acadêmicos analisam experiências históricas de criação artística coletiva e são concebidos de forma colaborativa e intergeracional. Crawford se dedica especialmente a práticas artísticas surgidas em contextos de desigualdade social e econômica, examinando como essas condições estimulam novos gêneros, métodos de produção e estruturas, incluindo formatos improvisados e para-institucionais. Sua pesquisa sobre atividades pedagógicas ligadas às práticas artísticas das décadas de 1960 e 1970 levou à criação das plataformas Black Arts Movement School Modality e New Art School Modality, ambas gratuitas, itinerantes e fundamentadas em novos valores para a educação artística.
Mayra A. Rodríguez Castro
Mayra A. Rodríguez Castro é escritora e editora de publicações. Entre seus trabalhos estão Dream of Europe: Selected Seminars and Interviews, 1984–1992, coletânea de palestras de Audre Lorde (2020); In Pursuit of Revolutionary Love, seleção de textos da filósofa abolicionista Joy James organizada em colaboração com a Divided Publishing (2023); e Another Sun, conversa com a teórica política Françoise Vergès (2026). Em suas diversas publicações, Castro investiga inscrições ocultas encontradas em arquivos, poemas, canções e paisagens. Em cada página, homenageia os legados de poetas, criadores da palavra e filósofos que atuaram à margem da visibilidade.
Xiaoyu Weng
Xiaoyu Weng (pronuncia-se “sh-ih-ow-y-uu w-eh-ng”) é curadora e escritora cuja prática se desenvolve em estreita colaboração com artistas e agentes culturais. Ela cria estruturas curatoriais híbridas e sincréticas que destacam práticas contemporâneas, frequentemente conectando diferentes disciplinas e contextos culturais. Seu trabalho percorre grandes instituições, bienais e iniciativas independentes em diversos cenários internacionais, nos quais amizades se consolidam e novas redes de conexão emergem. Weng ocupou cargos curatoriais no Solomon R. Guggenheim Museum, na Art Gallery of Ontario, na Ural Industrial Biennial of Contemporary Art e na Kadist Art Foundation, entre outras instituições.

