Em 1952, um grupo de artistas reunidos em São Paulo lançava um dos manifestos mais concisos e contundentes da arte brasileira. Assinado por Charoux, Cordeiro, De Barros, Fejer, Haar, Sacilotto e Wladyslaw, o Manifesto Ruptura marcou o início oficial do movimento concreto no Brasil e estabeleceu uma divisão clara e sem concessões: de um lado, os que seguiam princípios velhos com formas novas; do outro, os que construíam formas e princípios inteiramente novos.
O texto é direto, quase esquemático — e essa escolha formal já é em si uma declaração estética. Sem metáforas, sem ornamentos, sem nostalgia. O grupo Ruptura entendia que o naturalismo científico da Renascença havia esgotado sua função histórica e que a arte visual precisava se alinhar aos valores do pensamento contemporâneo: rigor, inteligência, clareza de princípios.
O manifesto recusa tanto o naturalismo em todas as suas variações quanto o informalismo e o expressionismo, propondo no lugar deles uma arte fundada em conceitos verificáveis — capaz de ocupar um lugar legítimo no campo do conhecimento humano, ao lado da ciência e da filosofia.
Lido hoje, o Manifesto Ruptura permanece como um documento de rara precisão intelectual e como ponto de partida indispensável para compreender a trajetória da arte concreta e neoconcreta no Brasil.
ruptura
charoux – cordeiro – de barros – fejer – haar – sacilotto – wladyslaw
a arte antiga foi grande, quando foi inteligente.
contudo, a nossa inteligência não pode ser a de Leonardo.
a história deu um salto qualitativo:
não há mais continuidade!
então nós distinguimos
- os que criam formas novas de princípios velhos.
- os que criam formas novas de princípios novos.
por que?
O naturalismo científico da renascença – o método para representar o mundo exterior (três dimensões) sobre um plano (duas dimensões) – esgotou sua tarefa histórica.
foi a crise foi a renovação
hoje o novo pode ser diferenciado precisamente do velho. nós rompemos com o velho por isto afirmamos:
é o velho
- todas as variedades e hibridações do naturalismo;
- a mera negação do naturalismo, isto é, o naturalismo “errado” das crianças, dos loucos, dos “primitivos”, dos expressionistas, dos surrealistas, etc….;
- o não-figurativismo hedonista, produto do gosto gratuito, que busca a mera excitação do prazer ou do desprazer.
é o novo
- as expressões baseadas nos novos princípios artísticos;
- todas as experiências que tendem à renovação dos valores essenciais da arte visual (espaço-tempo, movimento, e matéria);
- a intuição artística dotada de princípios claros e inteligentes e de grandes possibilidades de desenvolvimento prático;
- conferir à arte um lugar definido no quadro do trabalho espiritual contemporâneo, considerando-a um meio de conhecimento deduzível de conceitos, situando-a acima da opinião, exigindo para seu juízo conhecimento prévio.

