20 gravuristas brasileiros para conhecer

Entre os gravuristas brasileiros mais importantes estão Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, Fayga Ostrower, Lygia Pape, Gilvan Samico, Maria Bonomi, J. Borges e Regina Silveira. Esta seleção traz 20 artistas, dez mulheres e dez homens, nascidos entre 1895 e 1943. Eles trabalharam com xilogravura, gravura em metal e litografia e formaram a gravura moderna e contemporânea no país.

A gravura brasileira do século 20 se formou em ateliês de ensino, onde uma geração passou o ofício à seguinte. Estes 20 artistas estão ligados por essa rede. Goeldi ensinou na Escolinha de Arte do Brasil e na Escola Nacional de Belas Artes, onde estudaram Gilvan Samico, Rossini Perez e Anna Letycia. Lívio Abramo dirigiu o curso de gravura da Escola de Artesanato do MAM-SP, onde Samico também aprendeu, e depois fundou o Estúdio Gravura com Maria Bonomi. Fayga Ostrower formou Lygia Pape e Anna Bella Geiger. Iberê Camargo criou em 1953 o curso de gravura em metal do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio e foi professor de Anna Letycia e Rossini Perez. Já o Ateliê de Gravura do MAM-Rio foi inaugurado em 1959 por Johnny Friedlaender e coordenado por Edith Behring durante a década de 1960. Ali Anna Bella Geiger, Isabel Pons, Rossini Perez e Anna Letycia trabalharam como alunos, assistentes ou professores. Na leitura do Arte como Assunto, essa genealogia pede uma revisão da história da arte brasileira: as mulheres estiveram no centro da transmissão da gravura como professoras, coordenadoras de ateliê e pesquisadoras de técnica. Por isso a matriz e a sala de aula aparecem nesta lista como lugares de autoria.

Os 20 gravuristas em resumo

#ArtistaNascimento e morteTécnica principalCentro de atuação
1Oswaldo Goeldi1895–1961XilogravuraRio de Janeiro
2Lívio Abramo1903–1992XilogravuraSão Paulo e Assunção
3Isabel Pons1912–2002Gravura em metalRio de Janeiro
4Iberê Camargo1914–1994Gravura em metalRio de Janeiro e Porto Alegre
5Edith Behring1916–1996Gravura em metalRio de Janeiro
6Fayga Ostrower1920–2001Xilogravura e metalRio de Janeiro
7Poty Lazzarotto1924–1998Gravura, desenho e muralCuritiba
8Marcelo Grassmann1925–2013Metal e litografiaSão Paulo
9Renina Katz1925–2025Xilogravura e litografiaRio de Janeiro e São Paulo
10Lygia Pape1927–2004XilogravuraRio de Janeiro
11Gilvan Samico1928–2013XilogravuraRecife e Olinda
12Arthur Luiz Piza1928–2017Gravura em metal e relevoParis
13Anna Letycia1929–2018Gravura em metalRio de Janeiro
14Rossini Perez1931–2020Linoleogravura e metalRio de Janeiro e Paris
15Anna Bella Geiger1933Gravura em metalRio de Janeiro
16Maria Bonomi1935XilogravuraSão Paulo
17Evandro Carlos Jardim1935Gravura em metalSão Paulo
18J. Borges1935–2024Xilogravura de cordelBezerros (PE)
19Regina Silveira1939Serigrafia, offset e gravuraSão Paulo
20Lotus Lobo1943LitografiaBelo Horizonte

Oswaldo Goeldi

Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 31 de outubro de 1895. Morte: Rio de Janeiro (RJ), fevereiro de 1961.

Oswaldo Goeldi era filho do naturalista suíço Emílio Goeldi. Passou a infância em Belém do Pará e estudou na Suíça. Em 1919 voltou ao Rio de Janeiro e começou a trabalhar como gravador e ilustrador de revistas populares. Aprendeu xilogravura com Ricardo Bampi em 1923. Pouco depois começou a se corresponder com o austríaco Alfred Kubin, cujo expressionismo sombrio influenciou seu trabalho. Para se sustentar ilustrou livros e periódicos, e assim sua obra chegou a um público amplo. Em 1930 publicou o álbum 10 gravuras em madeira e em 1937 ilustrou o poema Cobra Norato, de Raul Bopp. A partir de 1952 ensinou na Escolinha de Arte do Brasil e, a partir de 1955, na Escola Nacional de Belas Artes, onde abriu uma oficina de xilogravura. Formou ali uma geração de gravadores. Goeldi é a principal referência da xilogravura moderna brasileira.

Interesses e assuntos: a noite urbana, a solidão, pescadores, bêbados e figuras à margem da cidade, urubus, chuva, casario do subúrbio carioca, paisagens amazônicas.

Técnicas: xilogravura em preto e branco e, mais tarde, xilogravura com pequenas áreas de cor (vermelho, amarelo, azul); desenho a nanquim; ilustração.

Destaques da produção: Chuva (1957); as xilogravuras para Cobra Norato (1937); participação na 25ª Bienal de Veneza (1950); prêmio de gravura na 1ª Bienal de São Paulo (1951).

Lívio Abramo

Nascimento: Araraquara (SP), 23 de junho de 1903. Morte: Assunção, Paraguai, 26 de abril de 1992.

Lívio Abramo aprendeu gravura praticamente sozinho e ligou a xilogravura ao compromisso social. Nos anos 1920 trabalhou como ilustrador. Na década seguinte fez gravuras sobre operários, imigrantes e a Guerra Civil Espanhola, como a série Espanha (1937). Entre 1953 e 1959 dirigiu o curso de gravura da Escola de Artesanato do MAM de São Paulo. Em 1960 fundou o Estúdio Gravura com Maria Bonomi. Recebeu o prêmio de gravura na 2ª Bienal Internacional de São Paulo. Chegou a Assunção em 1962 para coordenar as ações artísticas da Missão Cultural Brasileira e viveu no Paraguai até morrer. Lá formou gravadores e atuou na preservação do patrimônio das antigas missões jesuíticas.

Interesses e assuntos: trabalho e vida operária, conflitos políticos, religiosidade afro-brasileira, paisagens do Rio de Janeiro e do Paraguai, arquitetura.

Técnicas: xilogravura, linoleogravura, desenho, aquarela, litografia.

Destaques da produção: série Espanha (1937); série Macumba (anos 1950); o Estúdio Gravura (1960); papel na formação de uma geração de gravadores no Brasil e no Paraguai.

Isabel Pons

Nascimento: Barcelona, Espanha, 28 de janeiro de 1912. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 3 de junho de 2002.

Isabel Pons estudou pintura na Escola de Belas Artes de Barcelona entre 1925 e 1930. Ela chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1945, a caminho da Argentina. A escala no Rio de Janeiro a impressionou tanto que ela ficou na cidade para sempre. Em 1957 começou a ensinar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e em 1959 entrou no ateliê de gravura do MAM do Rio de Janeiro, com Rossini Perez e Johnny Friedlaender. Fez parte da Comissão Nacional de Belas Artes entre 1964 e 1967. Também criou figurinos e cenários para balé e teatro. É uma das gravadoras que trouxeram cor e figuração à gravura em metal brasileira do pós-guerra.

Interesses e assuntos: o Rio de Janeiro, o carnaval, figuras femininas, símbolos nacionais, fantasia e narrativa.

Técnicas: gravura em metal colorida (água-forte e água-tinta), pintura, ilustração, figurino.

Destaques da produção: a gravura Hino Nacional Brasileiro (1968); a colaboração com o filme Orfeu, de Marcel Camus; obras em museus do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Nova York e de Madri.

Iberê Camargo

Nascimento: Restinga Seca (RS), 18 de novembro de 1914. Morte: Porto Alegre (RS), agosto de 1994.

Iberê Camargo é conhecido sobretudo como pintor, mas teve na gravura em metal um segundo campo de pesquisa, com muita influência no ensino. Em 1942 mudou-se para o Rio de Janeiro e entre 1948 e 1950 estudou na Europa, onde aprendeu gravura em metal em Roma com Carlo Alberto Petrucci. De volta ao Brasil, em 1953, lecionou no Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro e fundou ali o curso de gravura em metal. Publicou o artigo Tratado sobre gravura em metal e o livro técnico A gravura. Esse curso foi um dos núcleos que firmaram a gravura em metal como linguagem moderna no Rio de Janeiro.

Interesses e assuntos: carretéis da infância, ciclistas, figuras humanas deformadas (os “idiotas”), memória, angústia existencial.

Técnicas: gravura em metal (água-forte, água-tinta, ponta-seca), pintura a óleo, desenho.

Destaques da produção: prêmio de gravura na Bienal de Gravura do México (1958); as gravuras da série dos carretéis; a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que guarda e estuda a obra gráfica do artista.

Edith Behring

Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 17 de janeiro de 1916. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 25 de janeiro de 1996.

Edith Behring estudou desenho e pintura com Candido Portinari e se especializou em gravura em metal em Paris, com Johnny Friedlaender. Em 1955 fez sua primeira exposição individual, na Galerie Saint-Placide, em Paris. Voltou ao Rio de Janeiro em 1957 e participou dos ajustes técnicos para montar o ateliê de gravura do MAM. O Ateliê Livre de Gravura do MAM-Rio foi inaugurado por Johnny Friedlaender e depois ficou sob a orientação de Edith Behring, que o coordenou durante toda a década de 1960. O ateliê formou dezenas de artistas e consolidou a gravura em metal como instrumento de criação no Brasil.

Interesses e assuntos: abstração informal, campos de textura e luz, tensão entre áreas escuras e claras, matéria da chapa.

Técnicas: gravura em metal (água-forte, água-tinta), desenho.

Destaques da produção: Gravura III (1959), no acervo do MAC USP; convite para a Bienal Americana de Gravura em Santiago (1963); retrospectiva na Galeria de Arte Banerj, no Rio de Janeiro (1983).

Fayga Ostrower

Nascimento: Łódź, Polônia, 14 de setembro de 1920. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 13 de setembro de 2001.

Fayga Ostrower nasceu numa família judia que se mudou para a Alemanha em 1921 e chegou ao Brasil em 1934, fugindo do nazismo. Viveu em Nilópolis e no Rio de Janeiro. Em 1947 fez um curso na Fundação Getulio Vargas, onde estudou xilogravura com Axl Leskoschek, gravura em metal com Carlos Oswald e história da arte com Hanna Levy. Suas primeiras gravuras eram figurativas e de tema social, como as ilustrações para O cortiço, de Aluísio Azevedo. Em meados dos anos 1950 passou à abstração, com xilogravuras em cores sobrepostas. Foi professora, teórica e autora de livros de referência como Criatividade e processos de criação (1977) e Universos da arte (1983).

Interesses e assuntos: ritmo, espaço e cor, abstração lírica, processos de criação, arte como formação humana.

Técnicas: xilogravura colorida com várias matrizes, gravura em metal, litografia, desenho, aquarela.

Destaques da produção: Grande Prêmio Internacional de Gravura na Bienal de Veneza (1958); papel de professora de gerações de artistas; o Instituto Fayga Ostrower, no Rio de Janeiro.

Poty Lazzarotto

Nascimento: Curitiba (PR), 29 de março de 1924. Morte: Curitiba (PR), 8 de maio de 1998.

Napoleon Potyguara Lazzarotto, o Poty, começou a desenhar no restaurante dos pais, em Curitiba, e foi para o Rio de Janeiro estudar na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1946 seguiu para Paris, onde se aprofundou na gravura e na litografia. Tornou-se mestre da gravura e criou o primeiro curso de gravura do MASP. Também foi um dos grandes ilustradores do livro moderno no Brasil, com capas e desenhos para obras de Guimarães Rosa e Dalton Trevisan. Em Curitiba deixou uma obra pública que faz parte da paisagem da cidade.

Interesses e assuntos: história e cotidiano do Paraná, sertão, imigração, trabalho, personagens literários, Curitiba.

Técnicas: xilogravura, gravura em metal, litografia, desenho, ilustração, murais em concreto, azulejo e vitral.

Destaques da produção: capas para Sagarana e Grande sertão: veredas; 35 murais e painéis tombados pelo patrimônio histórico do Paraná, 29 deles em Curitiba; a coleção de cerca de 4,5 mil obras doada ao Museu Oscar Niemeyer em 2022.

Marcelo Grassmann

Nascimento: São Simão (SP), 23 de setembro de 1925. Morte: São Paulo (SP), 21 de junho de 2013.

Grassmann estudou fundição, mecânica e entalhe na Escola Profissional Masculina do Brás, em São Paulo, entre 1939 e 1942, e começou a fazer xilogravuras em 1943. Na juventude frequentou a Biblioteca Mário de Andrade e se aproximou dos artistas e intelectuais paulistanos dos anos 1940. Descobriu as ilustrações de Gustave Doré para a Divina comédia, que marcaram seu imaginário. Nos anos 1950 estudou em Viena e passou a trabalhar sobretudo com gravura em metal e litografia. Criou um universo fantástico próprio e ilustrou jornais como o Diário de São Paulo e O Estado de S. Paulo. Também foi professor de gravura.

Interesses e assuntos: cavaleiros, guerreiros, monstros, bestiário medieval, figuras femininas, sonho e mundo onírico, o fantástico.

Técnicas: gravura em metal (água-forte, ponta-seca), litografia, xilogravura no início da carreira, desenho a nanquim.

Destaques da produção: obras nos acervos do MoMA, da Bibliothèque Nationale de Paris, do Museum of Fine Arts de Dallas e da Pinacoteca do Estado de São Paulo; sua casa natal em São Simão foi transformada em museu em 1978.

Renina Katz

Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 30 de dezembro de 1925. Morte: São Paulo (SP), 21 de janeiro de 2025.

Renina Katz Pedreira começou a carreira nos anos 1940, pintando retratos e paisagens do Rio de Janeiro. Em 1946 teve aulas com o ilustrador e gravurista austríaco Axl von Leskoschek. Depois estudou gravura em metal com Carlos Oswald, por sugestão de Poty Lazzarotto. Mudou-se para São Paulo em 1951 e ensinou gravura no MASP e na FAAP até a década de 1960. Também foi professora da FAU-USP. Suas primeiras gravuras tinham tema social. Em 1955 fez uma exposição individual em Moscou. Nos anos 1960 passou à abstração e, na década seguinte, adotou a litografia como técnica principal. A crítica a reconhece como uma das matriarcas da gravura no Brasil.

Interesses e assuntos: retirantes, salineiros, favelas cariocas, luz e sombra, paisagens imaginárias, cor.

Técnicas: xilogravura, gravura em metal, litografia em cores, aquarela, desenho.

Destaques da produção: o álbum Favela, seu primeiro álbum de gravuras, de 1956; a série Cárceres (1979); a litografia Lugar I (1982), no acervo do MAC USP; a doação de um conjunto de obras ao Museu Nacional de Belas Artes em 2004.

Lygia Pape

Nascimento: Nova Friburgo (RJ), 7 de abril de 1927. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 3 de maio de 2004.

Lygia Pape estudou com Fayga Ostrower e Ivan Serpa. Participou do Grupo Frente e assinou o Manifesto Neoconcreto em 1959. Antes das instalações e proposições que a tornaram conhecida, foi gravadora: fez xilogravuras exclusivamente entre 1952 e 1960, período em que a imprensa brasileira a identificava simplesmente como gravadora. Anos depois deu a essas gravuras o nome de Tecelares. O título aproxima a xilogravura da tecelagem e do trabalho manual das culturas indígenas e tradicionais brasileiras. A geometria precisa dos Tecelares deixa ver os veios da madeira e a transparência do papel japonês.

Interesses e assuntos: geometria, espaço, linha, tecelagem, participação do público, corpo, cultura indígena.

Técnicas: xilogravura sobre papel japonês; mais tarde livro-objeto, escultura, instalação, filme e performance.

Destaques da produção: a série Tecelares (1952–1960); o Livro da criação (1959); Divisor (1968); a série das Ttéias; exposições em grandes museus internacionais.

Gilvan Samico

Nascimento: Recife (PE), 15 de junho de 1928. Morte: Recife (PE), 25 de novembro de 2013.

Samico começou nos anos 1950 na Sociedade de Arte Moderna do Recife e foi estudar xilogravura com Lívio Abramo em São Paulo e com Oswaldo Goeldi no Rio de Janeiro. Ao voltar para Pernambuco, aproximou-se da xilogravura popular do cordel por sugestão de Ariano Suassuna e tornou-se o principal gravador do Movimento Armorial. Seu método era lento e rigoroso: muitas vezes fazia uma única gravura grande por ano, com desenho preparatório minucioso e corte de linhas finíssimas. Passou as últimas décadas numa casa do século 17 na cidade histórica de Olinda, onde mantinha o ateliê.

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Interesses e assuntos: mitos e lendas nordestinas, narrativas bíblicas, romances de cordel, bestiário fantástico, cosmologias, simetria e ordem.

Técnicas: xilogravura em preto e branco com pequenas áreas de cor, desenho, pintura.

Destaques da produção: O outro lado do rio (1980); O segredo do lago (1983); presença na retrospectiva dos 10 anos da Bienal do Mercosul e na 32ª Bienal de São Paulo.

Arthur Luiz Piza

Nascimento: São Paulo (SP), 13 de janeiro de 1928. Morte: Paris, França, 26 de maio de 2017.

Arthur Luiz Piza começou sua formação artística em 1943 com Antonio Gomide. Em 1951 mudou-se para Paris, onde estudou gravura com Johnny Friedlaender e viveu o resto da vida. Criou uma gravura em metal muito pessoal: usava a goiva para escavar a chapa e imprimir volumes no papel, o que deu às suas estampas o aspecto de relevo. Participou da Bienal de São Paulo da primeira à sétima edição, de 1951 a 1963. Mais tarde levou a mesma pesquisa para relevos, colagens e objetos.

Interesses e assuntos: matéria, volume, superfície, ritmo modular, abstração, cores terrosas e ocres.

Técnicas: gravura em metal com goiva e água-tinta, gravura em relevo, colagem, relevos em madeira e papel, escultura.

Destaques da produção: nos anos 1960 tornou-se um dos representantes mais marcantes da gravura; obras em coleções de Londres, Viena, Roma, Rio de Janeiro e São Paulo; homenagem no MAM de São Paulo em 2018.

Anna Letycia

Nascimento: Teresópolis (RJ), 25 de setembro de 1929. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 30 de outubro de 2018.

Anna Letycia Quadros estudou com vários mestres da gravura brasileira. Em 1954 aprendeu gravura com Iberê Camargo, em 1957 estudou xilogravura com Goeldi e em 1959 fez o curso inaugural de Johnny Friedlaender no MAM-Rio. Depois passou a integrar o corpo docente desse ateliê, coordenado por Edith Behring durante toda a década de 1960. Participou do Grupo Frente e trabalhou como cenógrafa e figurinista de teatro, sobretudo com Maria Clara Machado. Esteve na Bienal de Paris de 1959 e na Bienal de Veneza de 1962.

Interesses e assuntos: signos da natureza, como frutas e tatus, formas orgânicas sintetizadas, humor e delicadeza.

Técnicas: gravura em metal (água-forte, água-tinta), cenografia, figurino.

Destaques da produção: o livro Anna Letycia, de Angela Ancora da Luz, publicado em 1998; a retrospectiva no Museu Nacional de Belas Artes em 2012, com mais de 80 gravuras; papel de professora no MAM-Rio.

Rossini Perez

Nascimento: Macaíba (RN), 15 de setembro de 1931. Morte: Rio de Janeiro (RJ), 18 de março de 2020.

Rossini Quintas Perez mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1940 e estudou com Ado Malagoli, Oswaldo Goeldi, Iberê Camargo e Fayga Ostrower. Em 1953, ao visitar a 2ª Bienal de São Paulo, impressionou-se com as gravuras de Edvard Munch e passou a se dedicar à gravura. Em 1959 foi assistente de Johnny Friedlaender no Ateliê de Gravura do MAM-Rio e ensinou ali até 1961. Em 1962 se aperfeiçoou em litografia na Rijksakademie, em Amsterdã, e viveu em Paris de 1962 a 1972. Entre 1974 e 1975 ajudou a criar uma oficina de gravura em metal na Escola Nacional de Belas Artes de Dacar, no Senegal. Mais tarde dedicou-se também à fotografia da paisagem urbana do Rio de Janeiro.

Interesses e assuntos: favelas, morros, barcos e cais nos anos 1950, palafitas, memória da infância, abstração de texturas e torções.

Técnicas: linoleogravura, gravura em metal, litografia, fotografia, colagem.

Destaques da produção: Barcos (1955) e Favela (1956), no Museu Nacional de Belas Artes; a exposição Rossini Perez: um passante e duas margens, na Pinacoteca de São Paulo em 2013, com 88 obras.

Anna Bella Geiger

Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 1933. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Anna Bella Geiger é filha de imigrantes poloneses e começou nos anos 1950 como aluna no ateliê de Fayga Ostrower. Participou da primeira exposição de arte abstrata do país, em Petrópolis, e estudou história e sociologia da arte em Nova York. Entre 1960 e 1965 frequentou o ateliê de gravura em metal do MAM-Rio, onde depois também foi professora. A partir dos anos 1970 tornou-se uma das pioneiras da arte conceitual e da videoarte no Brasil. Usou mapas, fotografias e cartões-postais para discutir território, identidade e poder.

Interesses e assuntos: corpo e órgãos internos, cartografia, fronteiras, identidade brasileira, memória, crítica ao autoritarismo.

Técnicas: gravura em metal, fotogravura, serigrafia, desenho, fotografia, vídeo, objetos e caixas.

Destaques da produção: a série Viscerais (1965), que esgarçou os limites das técnicas tradicionais de gravura; Brasil nativo/Brasil alienígena (1977); obras na Tate Modern e no Centre Pompidou.

Maria Bonomi

Nascimento: Meina, Itália, 8 de julho de 1935. Vive e trabalha em São Paulo.

A mãe de Maria Bonomi era brasileira e o pai, italiano. Ela chegou ao Brasil em 1946 e naturalizou-se brasileira em 1953. Em São Paulo estudou pintura e desenho com Yolanda Mohalyi e Karl Plattner e gravura com Lívio Abramo, com quem fundou o Estúdio Gravura em 1960. Levou a xilogravura a grandes formatos e expandiu a matriz para a arte pública, tema do doutorado que defendeu na USP. Também é escultora, muralista, cenógrafa, figurinista, curadora e professora. Em 2024 participou da 60ª Bienal de Veneza.

Interesses e assuntos: a matriz como objeto, memória coletiva, história de São Paulo, migração, cosmologias latino-americanas, arte pública.

Técnicas: xilogravura de grande formato, gravura em relevo sobre concreto e metal, escultura, mural.

Destaques da produção: Epopeia paulista (2004), painel em concreto pigmentado de 300 cm × 7.300 cm na Estação da Luz, em São Paulo; o painel Construção de São Paulo (1998), na estação Jardim São Paulo do metrô.

Evandro Carlos Jardim

Nascimento: São Paulo (SP), 1935. Vive e trabalha em São Paulo.

Evandro Carlos Jardim entrou na Escola de Belas Artes de São Paulo em 1953. Fez a primeira exposição individual em 1966 e participou da 9ª Bienal de São Paulo no ano seguinte. Especializou-se em gravura em metal e voltou ao mesmo tema durante seis décadas: a cidade de São Paulo e seus arredores. Costuma retomar as mesmas matrizes anos depois, em novos estados, o que faz da sua obra uma espécie de diário gravado. Foi professor na USP de 1972 até se aposentar, em 1993, e formou gerações de gravadores paulistas.

Interesses e assuntos: paisagem urbana de São Paulo, o Pico do Jaraguá, o rio Tamanduateí, trens, céu e neblina, passagem do tempo.

Técnicas: gravura em metal (água-forte, água-tinta, buril), xilogravura combinada ao metal, desenho, pintura a têmpera.

Destaques da produção: Night Train (1974), no acervo do MASP; prêmio de melhor gravador do ano da APCA em 1974 e 1992; participação na 38ª Bienal de Veneza (1976); uma gravura no acervo do MoMA, em Nova York.

J. Borges

Nascimento: Bezerros (PE), 20 de dezembro de 1935. Morte: Bezerros (PE), 26 de julho de 2024.

José Francisco Borges era filho de agricultores. Antes de se descobrir xilogravurista, tornou-se poeta cordelista. Começou a gravar as próprias capas de cordel por falta de dinheiro para encomendá-las e logo passou a fazer capas para outros poetas. Com o tempo suas xilogravuras ganharam autonomia, cresceram de formato e circularam pelo mundo. Em Bezerros manteve o Memorial J. Borges, ateliê onde trabalhava com filhos e herdeiros do ofício. É o principal nome da xilogravura popular nordestina e uma ponte entre o cordel e a gravura de galeria.

Interesses e assuntos: vida no sertão, vaqueiros, cangaço, festas populares, bichos, lendas, religiosidade, humor e crítica social.

Técnicas: xilogravura em preto e branco e em cores, literatura de cordel.

Destaques da produção: xilogravuras para As palavras andantes (1993), de Eduardo Galeano; o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco e a Ordem do Mérito Cultural (1999).

Regina Silveira

Nascimento: Porto Alegre (RS), 1939. Vive e trabalha em São Paulo.

Regina Silveira formou-se no Instituto de Artes da UFRGS. No início dos anos 1960 teve aulas de pintura com Iberê Camargo, de xilogravura com Francisco Stockinger e de litografia com Marcelo Grassmann no Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Lecionou na Universidade de Porto Rico entre 1969 e 1973. Ao voltar, coordenou o setor de gravura da FAAP e passou a ensinar na ECA-USP. Nos anos 1970 usou a gravura como meio conceitual, com serigrafia, offset e cartões-postais. A pesquisa sobre a perspectiva e a sombra levou depois a grandes instalações e projeções.

Interesses e assuntos: perspectiva e distorção, sombra, simulacro, cidade, crítica aos meios de comunicação e à sociedade de consumo.

Técnicas: serigrafia, offset, heliografia, litografia, xilogravura no início da carreira, desenho, instalação, vinil adesivo, projeção.

Destaques da produção: Middle Class & Co (1971); a série Anamorfas (1979–1981), conjunto de gravuras e desenhos sobre as distorções da perspectiva, e os Simulacros (1982–1984); Tramazul (MASP, 2010).

Lotus Lobo

Nascimento: Belo Horizonte (MG), 1º de abril de 1943. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

Lotus Lobo estudou na Escola Guignard. Nos anos 1960 descobriu a litografia nos ateliês coletivos, onde aprendeu o ofício com os mestres João Quaglia e Antonio Grosso. Em 1969 conheceu a produção de embalagens de folha de flandres da Estamparia Juiz de Fora, onde reuniu matrizes das primeiras décadas do século 20. A partir daí construiu uma obra de apropriação de rótulos industriais de manteiga, balas e doces, muitos com nomes femininos. Recombinou essas imagens em novas impressões, sobreposições e transparências. Em 1970 participou do evento Do corpo à terra, organizado por Frederico Morais em Belo Horizonte, com a intervenção Plantação. Também formou gerações de gravadores mineiros.

Interesses e assuntos: memória da litografia industrial, design gráfico popular, rótulos e marcas, a imagem feminina na publicidade, refugos de impressão.

Técnicas: litografia sobre papel, folha de flandres, acrílico e plástico; apropriação de matrizes industriais em pedra e zinco.

Destaques da produção: as Maculaturas, apresentadas pela primeira vez em sua individual na Galeria Guignard em 1970; o Grande Prêmio do IV Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte (1970); a mostra Fabricação própria, no Sesc Pompeia (2021).

Perguntas frequentes

Quem é considerado o maior gravurista brasileiro?
Oswaldo Goeldi costuma ser apontado como o principal nome da gravura moderna no Brasil. Suas xilogravuras sobre a noite e a solidão urbana formaram uma linguagem própria, e o ensino dele na Escolinha de Arte do Brasil e na Escola Nacional de Belas Artes formou gravadores como Gilvan Samico, Rossini Perez e Anna Letycia.

Quais são as principais gravuristas brasileiras?
Entre as mais importantes estão Fayga Ostrower, Edith Behring, Renina Katz, Lygia Pape, Isabel Pons, Anna Letycia, Anna Bella Geiger, Maria Bonomi, Regina Silveira e Lotus Lobo. Elas atuaram como artistas e também como professoras e coordenadoras de ateliês decisivos para a gravura no país.

Qual a diferença entre xilogravura, gravura em metal e litografia?
Na xilogravura, a imagem é entalhada em madeira e impressa pelas partes em relevo. Na gravura em metal, a imagem é sulcada numa chapa de cobre ou zinco, com instrumentos ou com ácido, e a tinta fica nos sulcos. Na litografia, o desenho é feito com material gorduroso sobre pedra ou chapa e a impressão depende da repulsão entre água e gordura.

Quem são os principais xilogravuristas do Nordeste?
J. Borges e Gilvan Samico são os nomes mais conhecidos. J. Borges levou a xilogravura do cordel para museus de vários países, e Samico uniu a tradição popular nordestina a uma gravura erudita ligada ao Movimento Armorial.

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