O Concretismo marcou uma das fases mais ousadas e estruturadas da arte brasileira no século XX. Surgido nos anos 1950, em um país que respirava modernização e progresso, o movimento propôs uma ruptura radical com a arte figurativa e subjetiva, defendendo uma linguagem visual baseada na razão, na geometria e na objetividade.
Mas, apesar da aparência racional e impessoal, o Concretismo também abrigou tensões e divergências — especialmente entre os grupos de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde artistas como Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica começavam a expandir os limites da forma. Neste texto, você vai entender como o Concretismo se formou, quem foram seus protagonistas, quais caminhos abriu e como sua influência ainda reverbera na arte brasileira de hoje.
1. O que é o Concretismo?
Movimento artístico surgido no Brasil nos anos 1950, o Concretismo propunha uma arte racional, objetiva e universal, baseada na matemática, na geometria e na linguagem visual pura — sem narrativas ou representações figurativas.
2. Origem e contexto histórico
Influenciado pela arte concreta europeia (sobretudo pelo suíço Max Bill), o Concretismo no Brasil surgiu em um momento de otimismo com o progresso, a industrialização e o desenvolvimento tecnológico do país.
3. O Grupo Ruptura em São Paulo
Fundado em 1952 por artistas como Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros e Luiz Sacilotto, o Grupo Ruptura defendia a ruptura com a arte subjetiva e figurativa, buscando uma linguagem visual rigorosamente construtiva.
4. Características do concretismo paulista
O grupo paulistano valorizava a objetividade, a clareza, o uso de formas geométricas precisas, o cálculo e a impessoalidade. A obra era um objeto visual autônomo, sem narrativas nem emoções.
5. O Grupo Frente no Rio de Janeiro
Fundado por Ivan Serpa e outros artistas em 1954, o Grupo Frente tinha uma abordagem mais sensível, mesmo dentro dos preceitos concretos. Participaram dele nomes como Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica.
6. Concretismo carioca: racionalidade com sensibilidade
Ao contrário dos paulistas, os artistas do Rio introduziam pequenas variações manuais, ritmo e dinamismo nas composições. A geometria era ponto de partida, mas não fim em si mesma.
7. Lygia Clark e a dissolução da forma
Nesse período, Lygia Clark produzia suas Superfícies Moduladas e Unidades, ainda dentro da lógica concreta, mas já apontando para a transformação da obra em experiência sensorial e arquitetônica.
8. Lygia Pape e a poesia visual
Lygia Pape, por sua vez, explorava ritmo, movimento e vibração ótica, como na série Tecelares, onde unia racionalidade geométrica com memória do corpo e da matéria.
9. Hélio Oiticica e a cor como estrutura
Oiticica começou sua trajetória no concretismo com obras como Metaesquemas, onde investigava as possibilidades da cor, da linha e do espaço como campos de ação visual, já prenunciando suas obras interativas do neoconcretismo.
10. O Manifesto Ruptura (1952)
O documento fundacional do grupo paulistano declarava guerra à arte “anecdótica” e propunha uma nova ética estética baseada na ciência, na ordem e na construção — uma arte para a sociedade moderna.
11. Exposição Nacional de Arte Concreta (1956–57)
Marcou o auge do concretismo, reunindo artistas do Rio e de São Paulo em São Paulo (1956) e no Rio (1957). Também expôs as diferenças entre as abordagens dos dois grupos.
12. Concretismo além do eixo Rio-SP
Embora centrado no Sudeste, o concretismo inspirou artistas em outros estados. Sua linguagem visual clara e sua valorização do projeto atraiu jovens artistas em busca de uma arte moderna e universal.
13. A poesia concreta: palavra como construção visual
Paralelamente às artes visuais, a poesia concreta surgiu como parte do mesmo impulso modernista de organização racional da linguagem. Criada em meados dos anos 1950 pelos poetas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, a poesia concreta propunha o uso da palavra como forma visual, espacial e sonora. O poema deixava de ser discurso linear para se tornar objeto gráfico, explorando recursos tipográficos, ritmo visual e síntese semântica.
14. Concretismo e design gráfico
Os princípios do concretismo influenciaram também o design gráfico e a arte publicitária no Brasil, com o uso de grelhas, tipografia modular e composição racional nas décadas seguintes. Lygia Pape também atuou como designer gráfica, criando embalagens modernas e funcionais para marcas como Piraquê.
15. Concretismo como base para o neoconcretismo
As tensões internas no movimento — especialmente entre razão e sensibilidade — levaram à ruptura que originaria o Neoconcretismo em 1959, abrindo espaço para a arte mais subjetiva, corporal e participativa.

