O artigo de Ana Paula Simioni investiga a presença de artistas latino-americanos no acervo do Centre national des arts plastiques (Cnap), na França, a partir de um levantamento feito entre 2020 e 2022. O foco da análise recai especialmente sobre as artistas mulheres oriundas da América Latina que integraram a coleção do centro francês entre os anos 1970 e 1980, um período marcado por intensificação dos fluxos migratórios entre o Sul Global e a Europa, especialmente em função de exílios políticos e circulação artística.
A autora chama atenção para o fato de que, apesar de comporem parte do acervo público francês, essas artistas permanecem em grande medida invisíveis tanto nos circuitos institucionais quanto na historiografia da arte. Muitas delas chegaram à França vindas da Argentina, do Brasil ou do México e atuaram no circuito parisiense por meio de exposições coletivas, salões e espaços autônomos ligados, em alguns casos, ao movimento feminista. Ainda que algumas tenham conseguido inserir suas obras em instituições como o Cnap, sua presença raramente se converteu em reconhecimento crítico ou em participação em mostras retrospectivas posteriores.
O texto também discute como o processo de aquisição dessas obras esteve inserido em políticas culturais específicas dos governos socialistas franceses, que buscaram ampliar o escopo da coleção pública para além dos artistas europeus. No entanto, a análise aponta que essa abertura foi parcial e limitada, reproduzindo apagamentos e desigualdades que ainda hoje dificultam o acesso a informações sistematizadas sobre essas produções.
1. Marie Orensanz (Argentina)
Marie Orensanz iniciou sua trajetória artística na Escuela Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires e desenvolveu sua prática entre a Argentina, a Itália e a França. A partir dos anos 1970, estabeleceu-se em Paris, onde passou a participar de exposições coletivas e salões independentes. Sua produção está centrada na escultura, no desenho e em trabalhos textuais, frequentemente voltados à ideia de fragmento como estrutura. Em 1982, apresentou a obra “Diriger à distance”, adquirida pelo Cnap após exposição na Galerie des Femmes. Seu trabalho dialoga com questões conceituais e explora suportes como papel, pedra, vidro e fotografia.
2. Lea Lublin (Argentina)
Formada inicialmente na Argentina, Lea Lublin estudou na École des Beaux-Arts de Paris e se envolveu com o debate artístico europeu a partir dos anos 1950. Sua prática atravessa pintura, instalação, performance e pesquisa teórica. Desenvolveu experimentos nos quais questionava as relações entre arte, museu e público, com trabalhos que incorporavam imagens religiosas, psicanálise e crítica institucional. Participou de exposições internacionais e realizou projetos em que investigava arquivos e processos de reinterpretação da história da arte.
3. Cybèle Varela (Brasil)
Cybèle Varela graduou-se na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e, posteriormente, estudou na École du Louvre, em Paris. Sua produção atravessa pintura, fotografia e vídeo, com interesse por processos digitais e sobreposições de imagens. Nos anos 1970 e 1980, participou de bienais e salões na Europa e na América Latina. O Cnap adquiriu obras em que explora combinações cromáticas e construções visuais próximas do campo expandido da pintura, sem necessariamente fixar-se em uma única linguagem.
4. Hoo Mojong (China/Brasil)
Hoo Mojong nasceu em Ningbo, na China, e mudou-se para o Brasil nos anos 1950. Iniciou sua trajetória artística em Campinas e São Paulo, onde participou de exposições de gravura. Em 1965, estabeleceu-se em Paris, onde desenvolveu parte significativa de sua carreira. Sua produção se concentra em gravuras, colagens e assemblages sobre papel, explorando técnicas mistas e uso de materiais diversos. Segundo a base do Cnap, é a artista de origem brasileira mais representada na coleção, com quatorze obras. Apesar disso, seu nome é pouco mencionado na historiografia brasileira da arte.
5. Martha Boto (Argentina)
Martha Boto atuou inicialmente em Buenos Aires, onde desenvolveu suas primeiras experiências com pintura geométrica. Em 1959, mudou-se para Paris, onde passou a integrar o circuito da arte cinética. Sua produção envolve objetos móveis, caixas de luz e estruturas mecânicas, com foco na manipulação de movimento, cor e luz. Participou de exposições ligadas à arte óptica e ao cinetismo, tendo obras adquiridas por instituições francesas, incluindo o Cnap, nos anos 1980. Trabalhou com motores, espelhos e materiais industriais, integrando tecnologia e arte.
6. Nelida Fedullo (Argentina)
Nelida Fedullo teve formação em artes plásticas na Argentina antes de se deslocar para a Europa. Sua produção registrada no Cnap inclui colagens e desenhos sobre papel, com uso de técnicas como pastel, grafite e recorte. Há poucas informações públicas sobre sua trajetória, mas ela integrou o grupo de artistas latino-americanos cujas obras foram adquiridas pelo Cnap durante a década de 1980, momento de maior abertura institucional às produções vindas do Sul Global.
7. Meta Mari-Carmen Hernandez (México)
Meta Mari-Carmen Hernandez é uma artista mexicana cuja obra foi incorporada ao Cnap durante o processo de aquisição de obras latino-americanas nas décadas de 1970 e 1980. Trabalhou com pintura e desenho, e sua produção visual dialoga com construções figurativas e abstratas. Sua atuação está vinculada a exposições coletivas, especialmente salões de arte, e há poucos registros de sua inserção em mostras individuais ou debates críticos. Sua presença no acervo francês marca uma das poucas representações femininas do México no período.
8. Graciela Iturbide (México)
Graciela Iturbide é fotógrafa, formada pelo Centro Universitário de Estudos Cinematográficos da Universidade Nacional Autônoma do México. Trabalhou como assistente de Manuel Álvarez Bravo, com quem aprofundou seu interesse pela fotografia documental. Sua produção é marcada pela investigação de rituais, tradições populares e identidades culturais mexicanas, com ênfase na vivência de mulheres em contextos indígenas e periféricos. No Cnap, suas obras foram incorporadas ao lado de outros fotógrafos latino-americanos nos anos 1980.
9. Maria Simon (Argentina)
Maria Simon integrou o circuito parisiense a partir dos anos 1970, período de forte presença latino-americana em função dos regimes militares. Sua produção registrada no Cnap inclui desenhos e obras em papel, com referências à figuração simbólica e ao uso de colagens. Com formação artística na Argentina, participou de salões e exposições coletivas na França. Sua obra compõe o conjunto de aquisições realizadas em contexto de abertura cultural durante os governos socialistas franceses da década de 1980.
10. Virginia Tentindo (Argentina)
Virginia Tentindo é uma artista argentina cuja presença no acervo do Cnap é ligada ao contexto dos anos 1980. Trabalha com pintura e desenho, explorando composições figurativas e gestuais. Documentos da época registram sua atuação em exposições coletivas na França, mas há escassez de informações sistematizadas sobre sua formação e trajetória posterior. Sua obra é parte de um pequeno grupo de produções femininas argentinas que integraram coleções públicas francesas no período.