O artigo “Notas sobre a legitimação da arte”, de Rosane Kaminski (2006), busca compreender como se dá o processo de legitimação das obras de arte a partir da perspectiva da sociologia da arte. A autora não se concentra nas especificidades estéticas ou críticas das obras, mas nas relações sociais e simbólicas que permitem que algo seja reconhecido como arte.
A questão central é: quem decide o que é arte? Com base em quais critérios?. Para responder, Kaminski analisa os papéis de artistas, críticos, curadores, instituições, mercado e público, mostrando como todos esses agentes se articulam em redes de poder.
O texto mostra que a arte não é legitimada por sua essência, mas por redes sociais de poder, instituições e interesses econômicos. O que se considera “arte” em determinado tempo e espaço depende de disputas simbólicas entre agentes do campo e pressões externas, revelando que a autonomia artística é sempre relativa e atravessada por tensões com o mercado e a mídia.
Meios de legitimação na arte
Segundo Rosane Kaminski, no artigo Notas sobre a legitimação da arte, os meios de legitimação na arte não estão no objeto em si, mas nas redes sociais e institucionais que o reconhecem como arte. Esses meios envolvem:
Agentes do campo artístico
- Críticos, curadores, historiadores, teóricos e museólogos: têm autoridade para identificar elementos formais e temáticos nas obras, inserindo-as em poéticas de seu tempo.
- Marchands, leiloeiros, colecionadores e galeristas: movimentam o valor econômico e simbólico das obras.
- Artistas e pares: o reconhecimento entre iguais também é central na construção da legitimidade.
Instituições
- Museus, bienais, salões, galerias e universidades: criam espaços de consagração e exclusão, determinando o que é visto, estudado e preservado.
- Academias (no caso histórico europeu): funcionaram como instâncias de legitimação desde o século XVII.
Mercado e patrocinadores
- O mercado de arte legitima obras por meio da circulação comercial e da atribuição de valor monetário.
- O mecenato privado e público e os patrocínios empresariais influenciam a seleção de obras e artistas que ganham visibilidade.
Meios de comunicação e lógica publicitária
- A mídia (jornais, revistas, televisão e hoje também internet) contribui para consagrar nomes, artistas e eventos.
- A espetacularização de grandes exposições e bienais transforma a legitimação em fenômeno de massa, ainda que o público nem sempre compreenda os códigos internos da arte contemporânea.
O público
- Mesmo que muitas vezes atue de forma indireta, o público compõe o circuito de legitimação ao participar de exposições, criar demanda e validar eventos.
Quem participa do processo de legitimação?
A obra de arte é uma construção social: não basta o artista criar algo, é preciso que esse trabalho seja reconhecido e validado por um conjunto de agentes. Entre eles estão críticos, curadores, historiadores, marchands, colecionadores, museus, galerias, patrocinadores, jornalistas e o próprio público. Essa rede estabelece hierarquias, critérios de valor e cotação.
Autores como Pierre Bourdieu falam do “campo de produções simbólicas”, onde a posição ocupada pelos artistas e suas obras determina suas chances de consagração. A legitimação é, portanto, resultado de disputas, exclusões e escolhas institucionais, e não apenas de um suposto “valor intrínseco” da obra.
O processo de autonomização da arte
Kaminski explica que a autonomia da arte é um processo histórico. Na Europa, a partir do Renascimento e sobretudo no século XIX, a arte passa a se libertar do controle da Igreja, da realeza e do poder político. A modernidade inaugura um espaço próprio da arte, com regras internas, julgamentos feitos pelos próprios pares e valorização da ruptura com a tradição clássica.
Na América Latina, porém, o processo foi mais frágil: os sistemas culturais não alcançaram a mesma autonomia devido à falta de um mercado consolidado, de profissionalização dos artistas e de bases econômicas sólidas. No Brasil, segundo Renato Ortiz, o modernismo ocorreu em meio a um capitalismo frágil, o que limitou a autonomia plena do campo artístico.
A noção de autonomia deve ser entendida de forma relativa: a arte constrói seus próprios mecanismos de consagração, mas permanece inserida em disputas sociais, políticas e econômicas.
Autonomia da arte vs lógica publicitária
Se em algum momento sonhou-se com uma arte “livre” de interferências externas, o século XX mostrou os limites desse ideal. Bourdieu destacou que, a partir da segunda metade do século, o sucesso de mercado passou a ser visto como critério de legitimação, substituindo a desconfiança que existia nas vanguardas em relação ao reconhecimento popular.
O mecenato privado e o patrocínio empresarial ocupam o lugar do mecenato público, criando dependências entre artistas e capital. A lógica publicitária penetra o campo artístico não apenas pela venda de obras, mas também pelo patrocínio de eventos, escolha de curadores e circulação de livros especializados. Assim, os grandes eventos – bienais, salões e megaexposições – tornam-se espaços de legitimação, mas também de espetacularização, atraindo multidões mais interessadas no “evento” do que nas obras em si.
No Brasil, essa lógica aparece desde o início do século XX, quando artistas migraram para a publicidade e a imprensa. Nos anos 1960 e 1970, o mercado de arte cresceu e muitos artistas também circularam por meios de massa (televisão, propaganda, música). Alguns, em contrapartida, buscaram preservar a autonomia por meio de práticas como o conceitualismo e a desmaterialização da obra, que dificultavam a absorção pelo mercado.
Múltiplas lógicas
Kaminski conclui que a legitimação da arte hoje ocorre em meio a múltiplas lógicas. De um lado, os agentes internos ao campo artístico (críticos, curadores, historiadores, artistas) ainda sustentam uma relativa autonomia, estabelecendo critérios específicos de valor. De outro, o poder econômico e midiático exerce forte influência, através do patrocínio, das leis de incentivo e da espetacularização cultural.
Assim, a legitimação da arte é um processo movediço, negociado entre forças internas e externas, e nunca apenas resultado do mérito estético de uma obra.
Ler também:
O que é legitimação na arte contemporânea, no livro When Art Meets Money
Meios de legitimação da arte em Contra el canon, de Andrea Giunta
Meios de legitimação da arte
Influência do colecionador na legitimação da arte

