O texto “A arte e sua mediação na cultura contemporânea” (1999), de Mônica Zielinsky, publicado no livro Crítica de Arte no Brasil: Temáticas Contemporâneas (Funarte, 2006), analisa a transformação do papel da crítica e das exposições de arte no contexto contemporâneo, discutindo como a noção de mediação tornou-se central na relação entre arte, instituições e público.
Mônica Zielinsky estabelece as bases conceituais e históricas de sua reflexão sobre o papel da crítica e da exposição no sistema da arte contemporânea. A autora inicia recuperando a origem do termo crítica, derivado do grego krino, que significa “distinguir”, “discernir” e “julgar”. Essa etimologia serve como ponto de partida para discutir como o exercício crítico, desde o século XVIII, esteve ligado à capacidade de formular juízos de valor e criar parâmetros de apreciação estética.
Zielinsky remonta a Diderot e ao contexto dos salões parisienses, onde surge a figura moderna do crítico de arte. Nesse cenário, o crítico desempenhava uma função essencialmente pública: aproximar o público da obra e ao mesmo tempo formar o gosto e o olhar, mediando entre o artista e a sociedade. A crítica, portanto, não era apenas uma instância de julgamento, mas também uma instância pedagógica, responsável por articular valores estéticos e morais no espaço público. A autora assinala que, a partir daí, crítica e exposição tornam-se inseparáveis, ambas operam como formas de mediação simbólica, isto é, como espaços de tradução entre o campo da criação e o da recepção social.
Em seguida, Zielinsky introduz o conceito de mediação, termo central de seu texto. A palavra deriva do latim mediatione, que significa “estar no meio”, e designa o ato de estabelecer relação entre polos distintos. No campo artístico, a mediação não se restringe à comunicação de conteúdos, mas envolve processos de transposição, contextualização e reinterpretação da obra. Assim, tanto a crítica quanto as exposições assumem a função de intermediárias: elas não produzem arte, mas produzem sentidos para a arte.
Ainda na introdução, a autora observa que a crítica moderna se desenvolveu sob o ideal iluminista de universalidade. Isto é, a crença de que seria possível construir critérios racionais e universais para avaliar a arte. No entanto, com o avanço da cultura de massas e das novas mídias, essa base se desestabiliza. O que antes era o “consenso estético”, sustentado pela ideia de um sujeito racional e autônomo, dá lugar a um “consenso do cultural”, no qual o valor da obra passa a depender de fatores institucionais, midiáticos e econômicos.
Zielinsky, portanto, abre seu ensaio apontando para um deslocamento histórico: da crítica como prática de juízo e formação do gosto, para a crítica como prática de mediação cultural. Essa mudança implica a perda do estatuto autônomo do crítico, que antes “julgava”, e a transformação de sua função em algo mais difuso, atravessado por interesses institucionais, políticos e de mercado. Essa constatação inicial prepara o terreno para o desenvolvimento do texto, em que a autora analisará como essa crise da crítica repercute nas exposições, nas instituições culturais e na própria experiência do público diante da arte contemporânea.
Consenso universal e consenso de cultural
Zielinsky argumenta que, na contemporaneidade, a crítica perdeu sua antiga função judicativa e se diluiu no circuito cultural e institucional. O sujeito moderno, outrora capaz de fundamentar o juízo estético em um consenso racional (como em Kant), fragmentou-se no contexto das mídias e do mercado global. O “consenso universal” que sustentava o valor da obra de arte deu lugar a um “consenso do cultural”, mediado pela mídia e pelas estruturas econômicas.
Segundo Mônica Zielinsky, o que ela chama de “consenso universal” corresponde ao princípio moderno que sustentava a crítica de arte desde o Iluminismo, uma crença de que seria possível estabelecer critérios universais e racionais de juízo estético, válidos para todos os sujeitos.
Esse consenso estava ligado à ideia de um sujeito autônomo, capaz de formular julgamentos desinteressados sobre a beleza, como proposto por Immanuel Kant na Crítica da Faculdade do Juízo (1790). Assim, o valor da obra de arte seria determinado por sua qualidade intrínseca, por sua capacidade estética de provocar uma experiência sensível e reflexiva, independente de interesses externos (como mercado, política ou mídia). Esse modelo sustentava a ideia de uma arte universal, avaliada por critérios de originalidade, forma e expressão, legitimados por uma crítica especializada.
Zielinsky explica, porém, que no contexto contemporâneo esse ideal se fragmenta. A emergência das indústrias culturais, da mídia de massa e do mercado global da arte desestabiliza os fundamentos filosóficos e éticos desse juízo universal. O que passa a vigorar, então, é o que ela denomina “consenso do cultural”, como um novo tipo de legitimação baseado não mais na universalidade da razão estética, mas na circulação e visibilidade cultural das obras.
Nesse “consenso do cultural”, o valor da arte deixa de depender do juízo crítico e passa a ser determinado por instâncias institucionais, midiáticas e mercadológicas: museus, bienais, galerias, imprensa e curadores. A legitimação ocorre por meio da exposição, da mídia e do consumo simbólico, e não necessariamente por reflexão estética.
Em outras palavras, enquanto o “consenso universal” se baseava em uma autoridade racional (o crítico, o filósofo, o público esclarecido), o “consenso do cultural” se apoia em uma autoridade institucional e midiática, que legitima a obra por sua presença e circulação. Zielinsky vê nessa mudança um dos sintomas centrais da crise da crítica: ela perde seu poder de julgamento e se transforma em um agente de mediação dentro de um sistema que tende mais à valorização cultural do que à avaliação estética.
Papel do curador
A autora descreve a crise do crítico contemporâneo, cuja função se desloca para a do curador, confundindo-se com o papel de animador cultural e gestor institucional. O crítico, antes responsável por “discernir, distinguir e julgar” (krino), agora atua mais como comunicador e pedagogo, atendendo às demandas de visibilidade e marketing cultural.
Segundo Mônica Zielinsky, o papel do curador na cultura contemporânea surge como um desdobramento direto da transformação do lugar tradicional do crítico de arte. A autora afirma que, com a democratização e a midiatização da cultura, o crítico perde gradativamente sua função de juiz – que, desde o século XVIII, lhe cabia avaliar, discernir e estabelecer parâmetros estéticos – e passa a se converter em curador, figura que atua como mediador cultural e agente institucional.
Ela escreve que, “de crítico passa-se a curador, um trabalho que se confunde em diversos aspectos com o de animador cultural”, uma vez que o curador agora responde diretamente “ao poder institucional que move e promove o mundo artístico”, abandonando, em grande medida, “a identidade crítica original – a de distinguir e julgar”. Em vez disso, esse novo curador passa a atuar nos caminhos da comunicação, da pedagogia e do comentário, integrando o sistema da arte como um operador simbólico mais próximo do público e das demandas do mercado.
Zielinsky aponta que o curador tornou-se uma peça fundamental na engrenagem das instituições culturais, bienais e grandes exposições, ocupando o espaço antes reservado ao discurso crítico. Esse deslocamento é ambíguo: de um lado, o curador amplia o acesso à arte e assume uma função interpretativa e educativa; de outro, torna-se também um agente do marketing cultural, moldado pelas lógicas institucionais e midiáticas.
No trecho final do texto, a autora enfatiza que o curador contemporâneo é um ator político, situado “no entre-os-homens, no intra-espaço”, e cuja responsabilidade é compreender os efeitos da mediação da arte em contextos determinados. Isto é, analisar como as obras são recebidas, significadas e apropriadas em diferentes comunidades e situações históricas. Para ela, o bom curador precisa ser capaz de tornar visíveis os processos de formação de juízos e decisões, revelando as articulações sociais e simbólicas da arte.
Zielinsky propõe, portanto, um modelo de curadoria comprometido com a análise crítica da mediação cultural, e não apenas com sua gestão. O curador deve atuar como intérprete e articulador de sentidos, consciente das relações de poder e das estruturas de legitimação que atravessam o sistema da arte. Ele é, assim, herdeiro e substituto parcial do crítico moderno, não mais o juiz universal, mas o mediador situado, que deve reconstruir a dimensão reflexiva e política da crítica no interior do espaço institucional contemporâneo.
Papel das exposições como mediadoras
Outro ponto central é a análise do papel das exposições como mediadoras. Zielinsky afirma que elas deixaram de ser arenas de debate dialético (como no modernismo) para se tornarem espetáculos midiáticos, parte de uma cultura da informação e do consumo. Cita eventos como bienais, Documenta de Kassel e grandes retrospectivas, que revelam a submissão da arte às lógicas institucionais e comunicacionais. Nesses contextos, o efeito teatral e o aparato de montagem frequentemente se sobrepõem ao contato efetivo com as obras, um processo que transforma a arte em culto e espetáculo, distanciando-a da análise crítica.
Segundo Mônica Zielinsky, as exposições desempenham um papel central na mediação da arte contemporânea, funcionando como dispositivos de tradução simbólica entre obra, instituição e público. No texto “A arte e sua mediação na cultura contemporânea” (1999), ela explica que as exposições, assim como a crítica, historicamente nasceram como formas de mediação, tornando pública a experiência estética e possibilitando o contato da sociedade com as produções artísticas.
Entretanto, a autora observa que esse papel transformou-se profundamente ao longo do século XX. No contexto contemporâneo, as exposições deixaram de ser lugares de debate e reflexão estética para se converterem em espetáculos midiáticos, absorvidos pela lógica da comunicação e do consumo cultural. O espaço expositivo, que antes abrigava o confronto de ideias, converte-se em um ambiente cenográfico e sensorial, projetado para atrair visibilidade e circulação, muitas vezes em detrimento da experiência crítica.
Zielinsky aponta que essa mudança acompanha o deslocamento da arte para o campo do “consenso do cultural”, conceito em que o valor das obras passa a depender não mais de critérios estéticos, mas de sua inserção no circuito institucional e midiático. As grandes mostras internacionais, como as bienais, a Documenta de Kassel, ou as megaexposições retrospectivas, são exemplos dessa transformação: elas se tornam eventos de massa, cujo impacto é medido pela repercussão na mídia e pelo número de visitantes, mais do que pela densidade crítica de suas proposições.
A autora alerta que, nesses contextos, o aparato de montagem e iluminação, a arquitetura do espaço e os recursos tecnológicos frequentemente sobrepõem-se ao contato direto com as obras. O espectador é conduzido a uma experiência espetacular e passageira, uma espécie de “peregrinação cultural”, em que a arte é consumida como imagem, não vivida como reflexão. Assim, as exposições passam a reproduzir a lógica da mídia, transformando a arte em um produto de entretenimento e deslocando a função crítica para o campo do marketing cultural.
Zielinsky analisa também o papel da curadoria nesse processo, argumentando que o curador se torna a figura central dessas novas mediações. Ele atua como autor das exposições, selecionando, interpretando e organizando o discurso visual que será oferecido ao público. Contudo, ao mesmo tempo em que o curador dá forma às experiências de mediação, ele também se insere nas engrenagens institucionais e comunicacionais que condicionam seu trabalho. A exposição, portanto, é tanto um espaço de pensamento quanto um instrumento de poder simbólico.
Democratização e restrição da crítica
Zielinsky dialoga com autores como Hal Foster, Marc Jimenez, Jean Davallon e Ronaldo Brito, para sustentar que a democratização da cultura gerou uma nova forma de passividade coletiva. Segundo ela, a mídia distribui a cultura de maneira vertical, sem reciprocidade, e o crítico – limitado por esse sistema – tende à impotência, reduzido à função de legitimar o circuito e não de tensioná-lo.
Para ela, essa “democratização” não significa necessariamente uma ampliação crítica da experiência cultural, mas, muitas vezes, uma distribuição massificada e vertical de produtos e discursos artísticos, controlada por sistemas institucionais e midiáticos. A cultura passa a ser transmitida de cima para baixo, como um fluxo unidirecional de informação, sem espaço para diálogo, reflexão ou contestação.
Zielinsky recorre a Hal Foster (especialmente The Return of the Real) para apontar como o sistema da arte contemporânea absorveu a crítica e a transformou em parte de sua própria lógica de mercado. A crítica, que antes tensionava e problematizava o campo, é incorporada ao circuito institucional como conteúdo legitimador: textos de catálogo, mediações educativas, discursos curatoriais, que reforçam o valor das obras e das exposições, em vez de questioná-los.
De Marc Jimenez, ela retoma a crítica à ilusão democrática da cultura de massa, em que o público é tratado como consumidor de signos e experiências visuais, e não como sujeito ativo na construção de sentidos. A participação se torna aparente: todos “têm acesso” à cultura, mas poucos participam de fato da produção ou da reflexão sobre ela. O resultado é uma passividade coletiva, sustentada por uma lógica de espetáculo e consumo cultural.
Com Jean Davallon, Zielinsky aprofunda a discussão sobre o papel das instituições e das exposições como dispositivos de mediação que organizam o olhar e o comportamento do público. As exposições são projetadas para orientar percursos, induzir interpretações e fabricar consensos, tornando-se, muitas vezes, mecanismos de controle simbólico sob o disfarce de abertura democrática.
Já a menção a Ronaldo Brito é fundamental para indicar uma posição de resistência. Brito, segundo Zielinsky, é um dos poucos críticos brasileiros que continuam a exercer uma função verdadeiramente crítica e política, consciente das limitações impostas pela mídia e pelas instituições. Sua escrita mantém viva a ideia de que a crítica não deve apenas descrever ou divulgar, mas tensionar o sistema da arte, revelando suas contradições e disputas internas.
Em síntese, ao articular esses autores, Zielinsky denuncia o paradoxo da cultura contemporânea: quanto mais a arte parece acessível e visível, menos espaço há para o pensamento crítico e o dissenso. A crítica e o público são neutralizados pela lógica midiática e institucional, e o sistema cultural, em nome da democratização, produz um consenso superficial, um público informado, mas não necessariamente ativo. Nesse contexto, o crítico, confinado a uma posição de legitimação, “tende à impotência”, incapaz de reintroduzir o conflito e a reflexão que outrora definiram a própria razão de ser da crítica de arte.
Características da crítica contemporânea segundo Zielinsky
Transformação da função judicativa
- Na contemporaneidade, a crítica perde o caráter de “juízo” e se torna mediação cultural.
- Em vez de julgar, o crítico interpreta, contextualiza e comunica — aproximando-se da função do curador e do comunicador institucional.
- A crítica passa a se confundir com práticas pedagógicas, curatoriais e de divulgação.
- Inserção nas estruturas institucionais
- Zielinsky observa que a crítica se tornou parte do sistema da arte, e não mais um olhar externo sobre ele.
- O crítico atua dentro das instituições — museus, bienais, galerias — e depende delas para sua visibilidade e circulação.
- Essa condição o torna vulnerável às pressões institucionais e midiáticas, o que pode comprometer sua autonomia
- Substituição do consenso estético pelo “consenso do cultural”
- O valor da obra deixa de depender de critérios estéticos universais e passa a ser determinado pela circulação midiática e institucional.
- O crítico se vê reduzido à função de legitimar o circuito, escrevendo textos de catálogo, resenhas e releases que reforçam o sistema em vez de questioná-lo.
- Crise e impotência crítica
- Para Zielinsky, há uma crise de legitimidade: o crítico contemporâneo perdeu seu poder de intervir e tensionar o campo.
- Ele tende à impotência, pois fala dentro de um sistema que já absorveu sua voz.
- A crítica deixa de ser um espaço de debate e se transforma em instrumento de visibilidade.
- A necessidade de uma crítica mediadora e reflexiva
- Apesar dessa crise, a autora não propõe o fim da crítica, mas sua reconfiguração.
- A crítica deve recuperar sua função reflexiva, política e interpretativa, questionando as condições de produção e recepção da arte.
- Ela deve atuar como mediação consciente, tornando visíveis os processos de significação e os mecanismos de poder que estruturam o campo artístico.
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