Xiyadie: papel recortado queer na Bienal de Veneza 2024

Xiyadie (província de Shaanxi, China, 1963) é um artista chinês que transformou o papel recortado tradicional, o jianzhi, em autobiografia queer. Pai, camponês e trabalhador migrante, documenta desde os anos 1980 a vida gay na China. Na Bienal de Veneza 2024, apresentou quatro obras, entre elas Sewn (1999) e Kaiyang (2021).

Xiyadie é o pseudônimo de um artista chinês nascido em 1963 no condado de Heyang, na região de Weinan, província de Shaanxi, no noroeste da China, área com longa tradição em artes populares. O nome, que ele próprio escolheu, significa “borboleta siberiana”, uma criatura capaz de sobreviver e florescer em condições duras; para o artista, o nome também coloca no centro a ideia de beleza, que ele considera a força mais poderosa de sua vida. O texto de parede da Bienal o apresenta como pai, camponês, homem gay, trabalhador migrante e artista, e essa sobreposição de identidades atravessa toda a sua obra. Xiyadie aprendeu a recortar papel com a mãe, ainda criança, e costuma ser descrito como autodidata, embora tenha frequentado uma escola local de artes e ofícios e trabalhado por alguns anos no departamento de artesanato do Estúdio de Cinema de Xi’an. Casou-se num casamento arranjado e teve dois filhos; durante anos, dedicou-se aos cuidados de um filho com deficiência, que morreu aos 26 anos. Em 2005, mudou-se para Pequim e passou a viver de trabalhos temporários, como vigia, cozinheiro, faz-tudo e catador de recicláveis. Hoje vive na província de Shandong. É considerado o primeiro artista conhecido do papel recortado chinês a se afastar publicamente do contexto da arte popular e o único, na China continental, a tratar de temas queer nesse meio. A Bienal de Veneza 2024 foi a primeira apresentação de sua obra na Exposição Internacional de Arte.

A presença de Xiyadie no Brasil é direta e institucional. Logo depois de Veneza, o artista integrou a exposição Histórias LGBTQIA+, no MASP, em São Paulo, aberta de 13 de dezembro de 2024 a 13 de abril de 2025, com curadoria de Adriano Pedrosa e Julia Bryan-Wilson, colaboração de André Mesquita e assistência de Leandro Muniz e Teo Teotonio. A mostra reuniu cerca de 200 obras e encerrou o ciclo anual do museu dedicado às histórias LGBTQIA+, que em 2024 incluiu individuais de Francis Bacon, Mário de Andrade, Catherine Opie, Lia D Castro e Leonilson. Em seguida, a obra Wall (2016) passou a integrar o acervo do MASP, entre as doações recentes apresentadas pelo museu. Como leitura editorial do Arte como Assunto, essa passagem por São Paulo ilumina uma questão que Pedrosa vem propondo há anos no MASP: a dissolução da hierarquia entre arte popular, artesanato e arte contemporânea, debate que no museu remete a Lina Bo Bardi e à exposição A mão do povo brasileiro (1969). Na série que o site dedica à Bienal, Xiyadie também conversa com outras trajetórias: como Maria Bonomi, ele trabalha com uma técnica gráfica em que a imagem nasce do vazio recortado; como Susanne Wenger com o àdìrẹ iorubá, ele assume uma técnica tradicionalmente feminina e a transforma em linguagem pessoal. Para o leitor brasileiro, a aproximação com a xilogravura de cordel, outra tradição gráfica popular que conta histórias em preto e branco, também ajuda a entender como uma técnica de festa e de feira pode virar crônica íntima e política.

O que é o jianzhi, o papel recortado chinês?

O jianzhi é a arte tradicional chinesa de recortar papel com tesoura ou faca para formar figuras, padrões e cenas, com uma história popular de cerca de dois mil anos. Em 2009, o papel recortado chinês foi inscrito na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Tradicionalmente, a técnica serve a usos festivos e protetores, como decorações para janelas, portas e casamentos, e tem uma iconografia própria de flores, pássaros, peixes, lanternas, vasos e sinais de boa sorte, como o símbolo da dupla felicidade. Na China rural, o papel recortado é uma arte praticada sobretudo por mulheres, transmitida de mães para filhas, e por isso um homem que recorta papel é um caso raro. Como o papel costuma ser dobrado antes do corte, as composições tendem à simetria, e as figuras se ligam umas às outras por linhas contínuas, já que o desenho precisa se sustentar como uma única folha recortada. Xiyadie trabalha sobretudo com papel Xuan, o papel de arroz fino, absorvente e de textura parecida com tecido, que permite tingir as imagens. Ele recorta várias folhas ao mesmo tempo, em edições, e as tinge com pigmentos chineses à base de água, os mesmos usados no interior de Shaanxi para decorar pães cozidos no vapor, num processo próximo das técnicas rurais de estampar e tingir tecidos. As obras grandes levam cerca de um mês só de corte, e o artista costuma fazer antes um pequeno recorte como modelo, cortando depois à mão livre.

Como Xiyadie transformou a tradição em autobiografia queer?

Xiyadie mantém o vocabulário do papel recortado tradicional e o usa para contar a própria vida. Suas composições reúnem flores, pássaros, animais, portas, muros, telhados, lanternas, o sol e a lua em torno de duplas e trios de homens amantes, entrelaçados em cenas eróticas baseadas em suas experiências e fantasias. À primeira vista, muitas peças parecem papéis recortados convencionais, e só um olhar atento revela, no meio dos motivos de boa sorte, a intimidade explícita entre homens. Os motivos recorrentes de portas, muros e cavernas aludem à identidade escondida do artista, que viveu por décadas como homem casado e pai. Outro gesto central é a metamorfose: os corpos se transformam em árvores, flores e espigas de trigo, numa afirmação de que o desejo queer é natural e faz parte do mesmo fluxo vital que move plantas, animais e astros, ideia que estudiosos aproximam do qi da filosofia taoísta. Xiyadie também costuma quebrar a simetria que a dobra do papel impõe, variando cada metade da imagem. Ao falar do seu meio, o artista disse que ali pode “dançar sem amarras, dar asas aos pensamentos e viver as fantasias”. A pesquisa acadêmica observa que, ao inserir o desejo entre homens no centro dos símbolos tradicionais, ele desmonta a ideia de que a homossexualidade seria uma importação ocidental na China e, ao mesmo tempo, enraíza o homoerotismo na cultura popular chinesa.

As obras de Xiyadie funcionam como um diário visual, em que cada peça registra um episódio de sua vida e da vida queer na China a partir dos anos 1980.

ObraAnoTema
Door1982Um par de portas giratórias que representam tradição e modernidade
Train1985O encontro com o primeiro namorado, um comissário de trem, numa viagem a Xi’an
Flowerpot1991Corpos que brotam de um vaso de flores, imagem do desejo como força vital
Gate1992Um portão divide a vida dupla do artista entre a casa e os encontros com homens
Sewn1999O conflito de aceitar a própria sexualidade dentro de um casamento heterossexual
Joy1999Uma cena erótica escondida entre flores, pássaros e um gato
A Harmonious World2008Uma cena aparentemente festiva da Olimpíada de Pequim, com mineiros explorados no subsolo
Wall2016Um muro de tijolos separa o artista de outro homem, ligados por um ramo de trepadeira
Tian’anmen2016Dois homens se beijam diante do Portão da Paz Celestial, em Pequim
Fish on a Chopping Board2018O sofrimento humano comparado a um peixe sobre a tábua de cortar
Kaiyang2021A noite de 2005 numa casa de banhos de Pequim e a descoberta de uma comunidade

O primeiro namorado, figura que aparece em várias obras, foi um comissário de trem chamado Minghui. Os dois viveram alguns anos juntos, até que a pressão familiar e social levou o companheiro a se casar com uma mulher. Muitas cenas felizes do casal foram recortadas depois da separação, como memória e reparação. Ao lado das obras eróticas, Xiyadie também fez trabalhos de crítica social, menos conhecidos, como A Harmonious World: sob a superfície de uma comemoração da Olimpíada de 2008, com mascotes e tocha olímpica, aparece uma mina de carvão com trabalhadores e esqueletos, imagem da desigualdade que o artista explicou com a própria experiência de vida entre os mais pobres. Em 2016, seu desenho de selos Harmony, em estilo de papel recortado, venceu o primeiro concurso de selos com temática LGBT da China, promovido pela Embaixada dos Países Baixos em Pequim no Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia.

Sewn (1999): a obra-chave em Veneza

Sewn (1999) é uma das obras mais fortes de Xiyadie e ocupou lugar central no texto de parede de Veneza, assinado pela curadora Rosario Güiraldes. A peça mostra o artista num pequeno cômodo dominado por uma porta e um telhado tradicionais chineses, olhando a foto de seu primeiro namorado, Minghui. Com a cueca amarela pendurada numa perna, ele costura o próprio sexo com uma grande agulha e uma linha feita de sêmen e sangue, imagem da dificuldade de aceitar a própria sexualidade enquanto estava preso a um casamento heterossexual. Uma lâmina afiada atravessa sua perna, sugerindo dor e impotência, e uma grande serpente que desliza dentro do corpo representa o desejo impossível de reprimir. O detalhe decisivo, segundo o texto curatorial, é que a mesma agulha usada para costurar o corpo também perfura o telhado do edifício, sugerindo um avanço em direção à libertação das pressões da tradição e da família. A obra tem 176 por 176 centímetros e foi feita em papel recortado com tintura à base de água e pigmentos chineses sobre papel Xuan. O texto de Veneza também ressalta uma mudança de cenário na trajetória do artista: os trabalhos dos anos 1980 e 1990 se passam quase sempre em interiores domésticos, enquanto os da primeira década do século XXI mostram cenas de amor em locais de encontro gay que ele descobriu ao chegar a Pequim, em 2005.

Kaiyang (2021): a primavera mais quente de Pequim

Kaiyang (2021) é a obra mais ambiciosa de Xiyadie, com 140 por 300 centímetros, em papel recortado com tintura à base de água e pigmentos chineses sobre papel Xuan, e esteve entre as quatro peças do artista em Veneza. A obra narra sua entrada na cena queer de Pequim em 2005. Numa noite fria, depois de circular pelo Parque Dongdan, um conhecido ponto de encontro gay perto da Praça Tiananmen, ele perdeu o último trem para casa, e um namorado o levou à famosa Casa de Banhos Kaiyang, onde era possível passar a noite por pouco dinheiro. Ali, Xiyadie encontrou abrigo provisório e uma comunidade duradoura, algo que não podia sonhar em sua cidade natal. Na obra, corpos entrelaçados se transformam em árvores floridas e se enlaçam a motivos decorativos tradicionais, entre um sol e uma lua que observam a cena e marcos de Pequim antigos e novos, incluindo um soldado de guarda em Tiananmen. O artista lembra aquela noite como “a primavera mais quente de Pequim”. A presença de referências precisas ao presente, como o soldado ou o logotipo da Olimpíada em outras obras, é importante para ele, porque ancora os motivos tradicionais no tempo vivido. Depois de Veneza, Kaiyang foi exposta no Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, e no espaço independente Para Site, em Hong Kong, em 2025.

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De artista popular a artista queer: a trajetória e seus debates

A trajetória de Xiyadie passou por três reconhecimentos, que a pesquisa acadêmica descreve como sucessivas transformações de identidade. O primeiro veio quando ele trabalhava numa loja de artesanato em Shaanxi: um especialista em folclore percebeu que ele criava temas novos em vez de copiar padrões tradicionais, e o artista passou a ser reconhecido pelo governo local como artista popular, com uma pequena bolsa mensal e a filiação a associações de literatura e arte populares. Nunca mostrou a esse professor suas obras homoeróticas. O segundo veio dos documentaristas Sha Qing e Ji Dan, que viveram meses com Xiyadie e o filho para filmar o documentário Wellspring (2012) e, ao descobrir suas obras queer, o incentivaram a fazê-las com mais liberdade. O terceiro aconteceu em Pequim: numa visita ao Beijing LGBT Center para um teste de HIV, ele mostrou fotos de seus recortes a um voluntário, e o centro incluiu suas obras em Difference-Gender, a primeira exposição de arte queer da China, em 2009. A mostra foi fechada pela polícia sob acusação de obscenidade, e todas as obras foram confiscadas, menos as de Xiyadie, porque os policiais viram apenas papéis recortados tradicionais e não perceberam o conteúdo. A partir daí vieram exposições no exterior, como no Museu de Antiguidades do Extremo Oriente, em Estocolmo (2012), na mostra Spectrosynthesis, no MOCA Taipei (2017), e a individual Cut Sleeve, Split Peach, na galeria NOME, em Berlim (2018). O primeiro artigo acadêmico sobre o artista, do pesquisador Hongwei Bao, propõe uma leitura crítica desse percurso: o mercado internacional e o movimento LGBTQ transnacional tendem a enquadrá-lo como o artista queer que sofre sob um regime repressivo, enquanto suas obras também falam de classe, migração e pobreza. O próprio Xiyadie recusa rótulos e já disse: “Sou apenas um camponês, que pertence à sua terra amarela.”

Reconhecimento internacional: Nova York, Veneza e além

A carreira internacional de Xiyadie ganhou força a partir de 2023. Naquele ano, a individual Xiyadie: Queer Cut Utopias, no The Drawing Center, em Nova York, organizada pela curadora Rosario Güiraldes com Hera Chan, reuniu mais de trinta papéis recortados do início dos anos 1980 até o presente e foi sua primeira individual na cidade. Güiraldes, que conhece a obra do artista desde pesquisas feitas na China em 2019, assinou depois o texto sobre ele na Bienal de Veneza. Em 2024, além da participação na 60ª Exposição Internacional de Arte, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, com curadoria de Adriano Pedrosa, Xiyadie apresentou a individual Butterfly Dream, na Blindspot Gallery, em Hong Kong, e participou de coletivas em Singapura e Pequim. Em Veneza, suas quatro obras ficaram no Arsenale, e a galeria Blindspot destacou Kaiyang como a peça de maior escala do conjunto. O artista é representado pela Blindspot Gallery e pela Richard Saltoun Gallery.

Cronologia de Xiyadie

  • 1963: nasce no condado de Heyang, em Weinan, província de Shaanxi, China.
  • Infância: aprende o papel recortado com a mãe.
  • Fim dos anos 1970: primeiras cenas homoeróticas em papel recortado, segundo registros biográficos.
  • 1982: Door.
  • 1985: Train, sobre o encontro com o primeiro namorado.
  • 1991–1992: Flowerpot e Gate.
  • 1999: Sewn e Joy.
  • 2005: muda-se para Pequim como trabalhador migrante; noite na Casa de Banhos Kaiyang.
  • 2008: A Harmonious World, sobre a Olimpíada de Pequim.
  • 2009: suas obras integram Difference-Gender, a primeira exposição de arte queer da China, fechada pela polícia.
  • 2012: documentário Wellspring, de Sha Qing; exposição em Estocolmo e na Califórnia.
  • 2016: Wall e Tian’anmen; vence o primeiro concurso de selos LGBT da China com Harmony.
  • 2017: participa de Spectrosynthesis, no MOCA Taipei.
  • 2018: individual Cut Sleeve, Split Peach, na NOME, em Berlim.
  • 2021: Kaiyang.
  • 2023: individual Queer Cut Utopias, no The Drawing Center, em Nova York.
  • 2024: quatro obras na 60ª Bienal de Veneza; individual Butterfly Dream, em Hong Kong; participa de Histórias LGBTQIA+, no MASP.
  • 2025: Kaiyang no Para Site, em Hong Kong; Wall entra no acervo do MASP.

Perguntas frequentes

O que significa o nome Xiyadie?
Xiyadie significa “borboleta siberiana”, pseudônimo que o artista escolheu para si. A borboleta é um animal capaz de sobreviver em condições duras e liga o nome à ideia de beleza, central em sua vida.

Quais obras de Xiyadie estiveram na Bienal de Veneza 2024?
O artista apresentou quatro papéis recortados no Arsenale, entre eles Sewn (1999), destacado no texto de parede, e Kaiyang (2021), sua obra de maior escala, com três metros de largura. Foi sua primeira participação na Exposição Internacional de Arte.

Como Xiyadie faz suas obras?
Ele recorta à mão, com tesoura, várias folhas de papel Xuan ao mesmo tempo e depois as tinge com pigmentos chineses à base de água. As obras grandes levam cerca de um mês só de corte.

Por que Xiyadie é considerado pioneiro?
Ele é o primeiro artista conhecido do papel recortado chinês a se afastar publicamente da arte popular e o único, na China continental, a tratar de temas queer nesse meio. Sua obra documenta a vida gay na China desde os anos 1980.

Xiyadie já expôs no Brasil?
Sim. Ele participou da exposição Histórias LGBTQIA+, no MASP, entre dezembro de 2024 e abril de 2025, com curadoria de Adriano Pedrosa e Julia Bryan-Wilson. Sua obra Wall (2016) integra hoje o acervo do museu.

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