Violeta Quispe (Lima, Peru, 1989) é artista e ativista quéchua ligada à comunidade de Sarhua, em Ayacucho. Filha de mestres das tablas de Sarhua, pinturas sobre madeira tradicionalmente feitas por homens, transformou essa tradição em instrumento contra a violência de gênero. Na Bienal de Veneza 2024, apresentou Ekekas e Ekekes, versões feministas e queer do deus andino da abundância.
Violeta Quispe Yupari nasceu em 1989 em Chorrillos, distrito de Lima, e vive na capital peruana. Assina também como Violeta Quispe de Sarhua, nome que a liga à comunidade camponesa quéchua de Sarhua, na província de Víctor Fajardo, região de Ayacucho, de onde vieram seus pais. É filha de dois mestres das tablas de Sarhua: Juan Walberto Quispe, músico, tecelão e figura central dessa tradição, morto em 2007, e Gaudencia Yupari, uma das primeiras mulheres a assinar as próprias tablas. Cresceu perto dos Pantanos de Villa, onde, em 1982, se instalaram famílias ayacuchanas que formaram a Associação de Artistas Populares de Sarhua, e passou a infância no ateliê familiar, onde a arte era ao mesmo tempo aprendizado e pertencimento. Seu percurso como artista foi autodidata e gradual. Hoje sua obra trata de violência de gênero, tensões familiares, silêncios herdados, direitos LGBTQIA+, colonialismo e mitologias andinas, e incorpora inscrições em quéchua, cores intensas e materiais ligados ao território. A própria artista resume sua relação com a tradição dizendo que “o que fazemos não começa conosco”, porque reúne o trabalho de pais, mães e de quem veio antes. A Bienal de Veneza 2024 foi sua primeira participação na Exposição Internacional de Arte.
A relação de Violeta Quispe com o Brasil passa pelo MASP e antecede a Bienal. A artista participou de Histórias indígenas, exposição do MASP em colaboração com o Kode Bergen Art Museum, aberta em São Paulo de 20 de outubro de 2023 a 25 de fevereiro de 2024, com uma equipe de curadores de vários continentes que incluía a artista peruana Sandra Gamarra, e coordenação curatorial de Adriano Pedrosa e Guilherme Giufrida. Em 2024, no contexto da exposição Histórias LGBTQIA+, a obra ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi! (Amor é amor!, 2022) foi doada ao acervo do museu. Em 2025, a tabla integrou Acervo em transformação: doações recentes, aberta de 22 de agosto a 26 de outubro, com 28 obras de 19 artistas que participaram da Bienal de Veneza, sob curadoria de Pedrosa, Regina Teixeira de Barros e Matheus de Andrade. O próprio texto do MASP explica que o enquadramento curatorial da Bienal dialogou diretamente com os ciclos anuais das Histórias do museu, como Histórias indígenas (2023) e Histórias LGBTQIA+ (2024), e que muitos artistas expostos em São Paulo foram selecionados para Veneza. Como leitura editorial do Arte como Assunto, a trajetória de Violeta mostra com clareza esse circuito: uma artista que passa por São Paulo, chega a Veneza com um texto escrito por um curador brasileiro e volta ao acervo de um museu brasileiro. Sua obra também dialoga com a série que o site dedica à Bienal. Como Xiyadie, ela transforma uma arte popular em autobiografia e militância; e, como ele, chegou ao acervo do MASP no mesmo conjunto de doações. Como Susanne Wenger, trabalha a partir de uma cosmologia não ocidental e de seus deuses, e, num movimento inverso ao do artista chinês, reivindica para as mulheres um ofício que era dos homens.

O que são as tablas de Sarhua?
As tablas de Sarhua são pinturas sobre madeira da comunidade quéchua de Sarhua que narram, em cenas e inscrições, os costumes, rituais, festas e crenças do povo. Na origem, eram vigas pintadas oferecidas como presente a famílias recém-formadas na construção de uma casa nova, com retratos dos membros da família, cenas da vida cotidiana e figuras protetoras, e eram transmitidas de geração em geração. Como explica o texto de parede de Veneza, essa produção era feita geralmente por homens, que a ofereciam às novas famílias. A partir dos anos 1970 e 1980, com a migração de sarhuinos para Lima, a tradição ganhou um novo formato, em tábuas retangulares menores, e passou a circular no mercado de arte popular e em museus. A Associação de Artistas Populares de Sarhua, fundada pelo pai de Violeta com Primitivo Evanán Poma, Valeriana Vivanco e Bernardino Ramos, teve papel decisivo nessa transformação. Nos anos 1990, os pintores da associação criaram a série Piraq Causa (“Quem é o culpado?”), com 24 tablas sobre o conflito armado interno que devastou Ayacucho nos anos 1980, denunciando violações cometidas tanto pelo Sendero Luminoso quanto pelas forças do Estado. Pesquisas antropológicas sobre a série mostram como ela registra o trauma da guerra e, ao mesmo tempo, os silêncios que a própria comunidade decidiu manter. As tablas são consideradas Patrimônio Cultural da Nação no Peru.
Mulheres que assinam: a segunda geração de pintoras de Sarhua
Violeta Quispe pertence à segunda geração de mulheres que pintam tablas de Sarhua, e sua trajetória só se entende ao lado da de sua mãe. Gaudencia Yupari estudou até a sexta série, casou-se aos 16 anos com Juan Quispe, que a iniciou na pintura, e integrou a primeira geração de pintoras da Associação de Artistas Populares de Sarhua, num ofício até então masculino. Ao se tornar uma das primeiras mulheres a assinar as próprias peças, abriu um espaço de autoria que a filha viria a ampliar. Mãe e filha passaram a pintar juntas obras sobre questões de gênero e violência contra as mulheres, e no fim de 2020 participaram da campanha #LUCHAPERÚ, promovida pela Presidência do Conselho de Ministros do Peru. Violeta se vê explicitamente como herdeira dessa primeira geração: a mãe pertence às mulheres que começaram a pintar tablas, e ela, às que vieram em seguida. Uma pesquisa de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Peru analisou a obra de Violeta Quispe e de Venuca Evanán, outra artista de Sarhua, e identificou nelas uma “agência visual decolonial situada”, capaz de transformar as tablas em dispositivos de memória ativa e arquivo afetivo. O estudo descreve o surgimento de um feminismo andino visual, que articula gênero, classe e etnia a partir da experiência dessas artistas como mulheres indígenas migrantes no Peru contemporâneo.
O ano de 2018 marcou uma mudança decisiva na obra de Violeta Quispe. Naquele ano, um conjunto de cerca de trinta tablas de Sarhua sobre o conflito armado, trazidas dos Estados Unidos para uma exposição no Museu de Arte de Lima, o MALI, foi alvo de suspeitas de apologia ao terrorismo, e a apresentação foi bloqueada, numa polêmica que mobilizou a imprensa e o debate público peruano sobre memória e censura. O episódio levou a artista a repensar sua prática. Ela explicou que entendeu, ali, “a importância de ter uma voz própria sem romper a essência”. A partir de então, passou a tratar diretamente de violência de gênero, conflitos familiares e silêncios herdados, sem abandonar a linguagem visual, as cores e as técnicas que recebeu dos pais. Também a partir de 2018, segundo o texto de parede de Veneza, Violeta passou a se concentrar em representações que reimaginam a figura do Ekeko. Nos anos seguintes, expandiu o vocabulário tradicional para instalações, colagens, relevos e materiais não convencionais, inclusive orgânicos, numa investigação sobre o corpo e as pressões sociais. Hoje trabalha principalmente com pigmentos naturais de terra de Sarhua e incorpora folhas de coca, plantas medicinais andinas, areia da costa peruana, folha de ouro, em referência à pintura colonial, e o próprio sangue.
Quem é o Ekeko e o que são as Ekekas e os Ekekes?
O Ekeko é uma divindade andina masculina associada à prosperidade e à abundância, muito popular no altiplano do Peru e da Bolívia. Costuma ser representado como um homem baixo e sorridente, vestido como mercador, carregado de miniaturas de objetos desejados, como alimentos, dinheiro, casas e ferramentas, e funciona como amuleto doméstico de boa sorte. Alguns dos objetos que carrega estão simbolicamente ligados à virilidade, como o touro e o dragão. Crenças locais associam a presença feminina ao azar, e é justamente essa ideia que Violeta Quispe desafia. A artista subverte o gênero da figura e cria Ekekas, versões femininas, e Ekekes, versões de gênero neutro. Em suas tablas, essas figuras carregam objetos que falam das lutas contemporâneas das mulheres e das pessoas LGBTQIA+, em lugar dos símbolos tradicionais da prosperidade masculina. Uma de suas obras mais citadas, Ekeka Kamachiq Apu (2022), cujo título remete a uma presidenta, foi feita durante a crise política e os protestos que deixaram mortos no Peru em 2022 e imagina uma mulher no comando do país. Ao trocar o gênero de uma divindade popular, Violeta mantém a função ritual do amuleto e muda aquilo que ele protege e promete.
As obras de Violeta Quispe na Bienal de Veneza 2024
Violeta Quispe apresentou suas tablas no Núcleo Contemporâneo do Arsenale, na 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, aberta de 20 de abril a 24 de novembro de 2024, com curadoria de Adriano Pedrosa. Os textos sobre a artista foram assinados por Matheus de Andrade, assistente curatorial do MASP. Uma das obras expostas foi El matrimonio de la chola (2022), policromia mista e pigmento natural com aplicação de folha de ouro sobre MDF, da Jorge M. Pérez Collection, de Miami. O texto oficial da Bienal descreve em detalhe outra figura, Ekeke Sarhuinx, em que as letras finais “e” e “x” marcam o gênero neutro. A figura combina elementos tidos como masculinos, como o poncho, o cigarro e o bigode, com saias e sandálias associadas ao feminino. O megafone, a máscara contra gás lacrimogêneo e a luva de boxe com a frase “luta constante” indicam o ativismo político, enquanto a bola e o carrinho, brinquedos de menino, questionam convenções de gênero. Bandeiras, livros e frases defendem a liberdade sexual e os direitos LGBTQIAP+, um “vinho sangue de Cristo” critica o conservadorismo cristão, e o refrigerante “Hinca-Cola”, trocadilho com a bebida peruana mais famosa, denuncia o imperialismo cultural. A obra também incorpora referências andinas, como as cores neon da arte chicha, diferentes tipos de milho, a folha de coca e instrumentos como a flauta de pã. Na parte inferior, as divindades do Sol e da Lua aparecem ao lado da frase em quéchua que significa “amor é amor”.
Obras principais
| Obra | Ano | Técnica | Tema |
|---|---|---|---|
| Ekeka Kamachiq Apu | 2022 | Pintura sobre madeira | Uma Ekeka presidenta, criada durante a crise política peruana |
| El matrimonio de la chola | 2022 | Policromia mista, pigmento natural e folha de ouro sobre MDF | Casamento e papéis de gênero na tradição andina; exposta em Veneza |
| ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi! (Amor é amor!) | 2022 | Acrílica e policromia mista com pigmentos naturais sobre compensado | A figura Ekeke Sarhuinx e a defesa dos direitos LGBTQIAP+; acervo do MASP |
| Te llevaré en mi manta, nieta | sem data | Pintura | Laços entre gerações de mulheres andinas |
| Wasipas nakarinchikmi (Em casa também se sofre) | 2025 | Técnica mista com pigmentos naturais sobre tecido e papelão costurado | Violência doméstica e silêncios familiares |
Os títulos em quéchua, frequentemente acompanhados de tradução para o espanhol, são parte essencial da obra. Eles mantêm viva a língua da comunidade e situam cada tabla numa fala própria, como acontece nas inscrições das tablas tradicionais, que sempre identificam pessoas, lugares e acontecimentos.
Depois da Bienal, a obra de Violeta Quispe ganhou circulação internacional rápida. Em 2025, a artista fez uma residência pelo programa do Institut français com a Cité internationale des arts, em Paris, onde apresentou, em 25 de junho, a performance Takiy, Kukuy, Kuyariy na exposição D’ici 60 ans: relayer. O texto que acompanhou a performance começa com uma afirmação forte: “Não somos monumento nem folclore.” No mesmo ano, participou da exposição Cuentos para no dormir, em Paris, com a artista peruana Ivana de Vivanco, e duas coleções públicas francesas dos FRAC adquiriram obras suas. Em seguida, apresentou em Paris sua primeira individual na cidade, Imaymanam Pacha, com curadoria de Rolando J. Carmona, que reúne pinturas sobre madeira, relevos e peças que avançam para a escultura e a instalação. A partir dos três mundos andinos, Hanan Pacha, o mundo de cima, Kay Pacha, o mundo daqui, e Uku Pacha, o mundo de baixo, a artista imagina um território para o que muda, é ambíguo ou difícil de classificar. Para o leitor português, vale registrar que Violeta participou também da 32ª Bienal de Arte de Pontevedra, na Galiza, e foi selecionada para a XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira, em Portugal. No Peru, expôs no Lugar de la Memoria, no Museu de Artes e Tradições Populares, na Casa O’Higgins e no Museu de Cultura Contemporânea, e apresentou em Lima, na Galeria L’Imaginaire da Aliança Francesa, a individual Wasipi – May Piraq Causa (Em casa, quem é o culpado?), cujo título dialoga diretamente com a série Piraq Causa da geração de seus pais. A artista é representada pela Baró Galeria e pela galeria Livia Benavides.
Cronologia de Violeta Quispe
- 1982: famílias de Sarhua se instalam perto dos Pantanos de Villa, em Lima, e formam a Associação de Artistas Populares de Sarhua.
- 1989: Violeta Quispe Yupari nasce em Chorrillos, Lima.
- Anos 1990: a associação cria a série Piraq Causa, sobre o conflito armado em Ayacucho.
- 2007: morte do pai, Juan Walberto Quispe.
- 2018: polêmica sobre tablas de Sarhua no MALI; a artista redefine sua prática e começa a reimaginar o Ekeko.
- 2020: participa com a mãe da campanha #LUCHAPERÚ.
- 2022: Ekeka Kamachiq Apu, El matrimonio de la chola e ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi!.
- 2023–2024: participa de Histórias indígenas, no MASP.
- 2024: obras no Núcleo Contemporâneo da 60ª Bienal de Veneza; ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi! é doada ao MASP no contexto de Histórias LGBTQIA+.
- 2025: residência na Cité internationale des arts, em Paris; performance Takiy, Kukuy, Kuyariy; exposição Cuentos para no dormir; aquisições por coleções FRAC; Acervo em transformação: doações recentes, no MASP.
- Depois de 2025: individual Imaymanam Pacha, em Paris; 32ª Bienal de Pontevedra; XXIV Bienal de Cerveira; individual Wasipi – May Piraq Causa, em Lima.
Perguntas frequentes
O que são as tablas de Sarhua?
São pinturas sobre madeira da comunidade quéchua de Sarhua, em Ayacucho, no Peru, que narram costumes, rituais, festas e crenças. Tradicionalmente feitas por homens, eram oferecidas como presente a novas famílias.
Quem são as Ekekas e os Ekekes de Violeta Quispe?
São versões feminina e de gênero neutro do Ekeko, deus andino da prosperidade representado como um mercador carregado de objetos. A artista desafia a crença de que a presença feminina traz azar e troca os símbolos da virilidade por objetos de luta feminista e LGBTQIA+.
Quais obras de Violeta Quispe estiveram na Bienal de Veneza 2024?
Entre as obras expostas no Arsenale estava El matrimonio de la chola (2022), da Jorge M. Pérez Collection. O texto oficial da Bienal descreve também a figura Ekeke Sarhuinx, que aparece em ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi! (2022).
Como a mãe da artista influenciou sua obra?
Gaudencia Yupari foi uma das primeiras mulheres a assinar tablas de Sarhua, num ofício até então masculino. Violeta se vê como parte da segunda geração de pintoras e já criou obras em parceria com a mãe sobre violência contra as mulheres.
Violeta Quispe tem obra em museu brasileiro?
Sim. A tabla ¡Kullaykusqay kullaykuqaymi! (Amor é amor!, 2022) integra o acervo do MASP, em São Paulo. A artista também participou da exposição Histórias indígenas no museu, entre 2023 e 2024.

